Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 13 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 12

Rosa chupa pequenas pedras como rebuçados. São pedras que apanhou em lugares onde viveu algum tipo de felicidade ou de dor, momentos que não quer esquecer. Por exemplo, tem um seixo que apanhou junto ao rio onde ela e os seus pais foram comer borrego na Páscoa. Algumas pedras são bicudas e Rosa fere a boca ao chupá-las como rebuçados, mas gosta da sensação, da dor que se mistura com a recordação da felicidade e com o sabor a ferrugem do sangue ou da vida. Diz umas ave-marias e umas salve-rainhas e pede a alegria ou a dor, a mesma que a pedra ainda tem dentro dela. A pedra que a faz lembrar a mãe é pontiaguda e fá-la sangrar.

Limpa a boca à roupa e levanta-se para ir buscar um livro de cowboys.

Pertenciam ao pai e são uma das suas poucas distrações, além de jogar à bisca dos sete quando a avó se mostra capaz de alguma lucidez. Há dois baralhos em casa, um com imagens de Viena e outro com mulheres nuas. Nenhum dos dois está completo, faltando um oito de espadas ao primeiro e um sete de copas ao segundo — uma mulher ruiva deitada de lado com um colar de pérolas e os lábios pintados de vermelho. Antónia faz sempre batota, jogando as cartas com as suas mãos lentas, com aquele tremor que parece água a ferver, e a neta finge não perceber as artimanhas ingênuas, ficando, no entanto, irritada e desistindo rapidamente. Por vezes nem chegam a acabar o primeiro jogo. Antónia diz que a neta tem mau perder e normalmente retorna ao seu estupor, volta àquela dormência da cabeça que se prolonga pelos braços, pelas pernas, até às unhas duras e amarelas das mãos e dos pés.

A estante do quarto de Rosa tem dezenas de westerns e alguns policiais. Já os

leu todos mais do que uma vez e o livro que escolhe naquele momento, que é também o seu preferido, é A morte não ouve o pianista. A personagem principal, um pistoleiro chamado Harold Estefania, acaba por morrer no final, depois de matar a mulher que amava — uma loira roliça que nunca falhava um tiro — deixando uma carta que termina assim:

 

Morro por amor, sem isso não vale a pena estar vivo. A minha vida foi feita para se entranhar na tua, como uma faca espetada no coração.

 

Rosa chora sempre que relê esta passagem e o parágrafo seguinte, em que o pianista, sem saber que no quarto do primeiro andar do saloon há dois mortos, começa a tocar no piano uma melodia alegre que põe toda a gente a dançar.

Depois de ler um pouco, Rosa levanta-se para tratar da horta — que está cada

vez mais pequena — e dar de comer às duas galinhas. Volta para casa mal termina de arrumar a saca de milho na casota, pois precisa de dar de comer à avó. Faz um piso de alhos e poejos e coentros que frita num bocadinho de azeite com louro. O pão é duro, mas ainda aguenta mais uma semana dentro da gaveta do móvel da sala. Estende uma toalha velha, puída, cansada do peso da comida, dos tachos e dos talheres, e serve dois pratos de sopa com a caldeta que cozinhou para o almoço. Senta a avó com muito cuidado e põe-lhe um pano a servir de babete. Antónia treme muito das mãos e quando leva a colher à boca é sempre uma operação delicada e lenta. Por vezes, quando entorna a comida ou em alturas em que se sente mais debilitada e não consegue acertar na boca, vêm-lhe as lágrimas aos olhos. Começa a piscá-los compulsivamente e a soluçar.

Rosa levanta-se, pois batem à porta. O vulto do outro lado, negro, deixa-a

assustada.