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Capítulo 24
Quando Rosa chega a casa de Santos & Santos, vai decidida a desistir de trabalhar para eles. Entra em casa e vai direto para o seu quarto, vai vestir a farda. Dona Clotilde chama as duas raparigas e Rosa e Matilde aparecem, de cabeça baixa, de cabeça baixa. Dona Paulina, mulher de Santos & Santos, está estendida numa chaise longue, com os peitos esmagados pela idade.
— Uma de vocês vai ser despedida — diz a patroa. — Só não sei qual. Rosa sente o coração bater como uma cama contra a parede. Começa a tremer
e tem vontade de vomitar. Leva a mão à boca para reprimir o impulso, o que, aos olhos de dona Paulina, surge como uma espécie de confissão. À patroa não restam dúvidas e ela expressa isso mesmo. Rosa não quer acreditar. Não gosta de estar ali, acha que deveria estar a cuidar da avó, mas a situação é injusta e deixa-lhe um sabor amargo na boca. Não fez nada de mal e está a pagar pela sua inocência, sublinhada pelo silêncio de Matilde. Rosa acha que esta deveria contar a verdade, mas faz o contrário e cala-se, fazendo com que o seu silêncio soe como uma denúncia.
— Putazinha — diz dona Paulina. — Vais sair daqui hoje e não te quero ver mais
aqui.
Rosa fica parada, com os pés perpendiculares. O esquerdo aponta para a
esquerda e o direito, mais atrás e perpendicular, toca com a ponta dos dedos o calcanhar do outro. Detesta que lhe digam coisas como aquela, pois isso irrita-a e dá-lhe vontade de gritar, e gritar fá-la sentir-se sozinha. É como se estivesse num deserto e ninguém a ouvisse e por isso precisasse de berrar. Gritar é coisa de pessoa sozinha, pensa. Quando temos pessoas para nos ouvir não precisamos de gritar, pois não? Pergunta Rosa a si mesma. E, no entanto, apesar de gritar lhe trazer uma grande solidão, continua com vontade de o fazer, de abrir a boca e deixar escapar palavras selvagens, ferozes. Os pés continuam perpendiculares um ao outro. Parecem ponteiros de relógio a marcar nove horas e meia. Rosa nunca teve um relógio, mas gosta de saber as horas pois sente que se deve almoçar ao meio-dia em ponto. Muitas vezes olha para o sol, que é um relógio primitivo, e pensa em como gostaria de ter um relógio de pulso com dourados e uma pulseira fininha, muito fininha, quase um fio. Teria de ser assim, pois tem receio de que possa vir a sofrer de alergias, e os pulsos são a parte do corpo de que mais gosta, logo a seguir aos joelhos e aos pés. Rosa não consegue evitar a solidão de gritar. Sai-lhe uma palavra qualquer, tão insignificante como “sapato” ou “pedra” ou “sopa”. Dona Paulina olha para ela espantada, não entende aquele grito. Dona Clotilde manda Rosa calar-se, e começam todas aos berros, a solidão é enorme, como se estivessem muito longe umas das outras, a acenar, a gritar para se fazerem ouvir àquela distância. Matilde chora, toda vermelha, e agarra os cabelos de Rosa enquanto dona Clotilde a puxa por um braço. Rosa sente a urina a descer-lhe pelas pernas e não se quer mexer. Pareço a minha avó, pensa, a mijar-me pelas pernas. Os pés, apesar da força que dona Clotilde faz para a expulsar da sala, mantêm-se a dar as mesmas horas, perpendiculares um ao outro. A urina entra-lhe nos sapatos e é desconfortável, mas Rosa quer manter os pés assim. Há uma sequência lógica para isto, pensa: os gritos fazem solidão e a solidão faz-nos velhos e a velhice urina-se pelas pernas como a minha avó.
Por fim, Rosa sai a correr e Matilde vai atrás dela, agarra-a pelos ombros e
abana-a, enquanto a outra chora convulsivamente.
— Tu querias ir embora — diz-lhe Matilde. — A tua avó precisa de ti e eu não
posso deixar a minha filha e o meu pai sem dinheiro. Compreendes?
Rosa tenta bater-lhe, tem a cara cheia de fúria, vermelha, as sobrancelhas a
cair sobre os olhos. Sabe que é mais ou menos assim, mas não deveria ser assim que as coisas se deveriam passar, por isso tenta bater-lhe outra vez. Matilde agarra-lhe as mãos e, quando sente que Rosa já não se tenta soltar, liberta-a. De seguida dá-lhe uma bofetada com tanta força que Rosa dá uma volta e meia antes de cair no chão.
Só se levanta depois de Matilde percorrer o corredor e de deixar de a ver. Não a
quer ver mais. A vida das pessoas acaba assim e Matilde nem sequer tem consciência de que morreu uma das suas mortes. De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós, ficaram condenados para um número limitado de pessoas a uma morte em tudo idêntica à outra. A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é a morte. O momento final é apenas isso, um momento.
Rosa caminha até ao quarto, põe tudo o que tem na sua mala. Ao sair, vê dona
Clotilde e sente vontade de ir correr pelos campos e de voltar com os sapatos cheios de lama para lhe inundar a vida e os corredores imaculados. Limita-se a despedir-se cordialmente enquanto a outra a insulta.
Quando sai de casa de Santos & Santos, apanha uma pedrinha. Irá chupá-la mais tarde, quando sentir vontade de odiar.