Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 41 de 73

Páginas do PDF

Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 40

A escola da vila ainda lhe traz emoções, à noite ainda sonha que anda pelos corredores, que são maiores do que os da realidade e abraçam-se num labirinto impossível, com janelas que dão para o passado, para dias específicos da sua vida. O professor, com as suas barbas intemporais e enquanto caminha com uma grande mala de viagem — ouvindo as solas dos sapatos a chiar no chão —, sente os olhos úmidos. Tem saudades de dar aulas, dos alunos, das preocupações. Encontra o diretor da escola e abraçam-se como se não se encontrassem frequentemente, mas o professor, desde a reforma, nunca mais voltara a entrar na escola, por isso o momento ganha uma solenidade especial. O diretor tem bigode e as costas encurvadas, um defeito de nascença sublinhado pela vida.

— Há voluntários?

— Há uns quantos. Estão na sala à tua espera. Caminham os dois para a porta. O professor dá passagem ao diretor, mas este

faz questão de que o outro entre primeiro. Ficam uns segundos a fazer gestos e a dizer, primeiro tu, passa, primeiro tu, passa lá. Acabam por decidir avançar em simultâneo, hesitantes, e o professor sorri. Então, dá um passo firme em frente e entra na sala. Há cerca de dez alunos com idades entre os quinze e os dezassete, todos sentados displicentemente nas cadeiras ou em cima das secretárias. O diretor manda-os sentarem-se como deve ser e ouvem-se suspiros e cadeiras a ser arrastadas.

— Está aqui o professor Borja — diz ele — que vai dar-vos as indicações para o

fim de semana em que uma aldeia do Alentejo será Jerusalém.

O professor pousa a sua mala, põe um ar grave: — Vocês irão ser a ordem macedônia que recita versos há mais de trezentos

anos nas ruas de várias capitais do Médio Oriente. Dizem poesia, de Píndaro a Kavafis, enquanto correm nus pelas ruas. Muitos acabam presos, mas não é assim que acaba toda a arte? Numa prisão? Se a deixassem viver, não estaríamos a falar de arte, mas sim de entretenimento. A melhor exposição da arte é a prisão. Lá dentro está no seu lugar, no seu verdadeiro lugar, que é de criminosa, que é de assassina dos lugares-comuns e de todas as ideias feitas. A melhor moldura de um quadro é a prisão. Já vimos vários em talha e em acrílico, mas a verdadeira arte terá sempre molduras de pedra. A ordem macedônia recita versos e mostra a arte. É a janela do calabouço, é admirável.

— Vamos nus?

— Não. Vocês são uma ordem menor, para desenrascar. Tenho aqui umas

roupas para vocês.

O professor inclina-se, abre a mala, e tira lá de dentro as roupas. São antigas

fardas e trajos populares que conseguiu emprestados de uma filarmônica e que serão usados com chapéus que fazem parte da própria coleção do professor Borja, chapéus trazidos da Moldávia, da Bulgária, do Sudão e do Egito, de Chipre, da Síria, do Líbano, da Anatólia.

— Vistam as calças pretas e as camisas brancas, os coletes coloridos.

Rematem com um chapéu.

Os rapazes aproximam-se das roupas e desdobram-nas. Trocam-nas entre si,

quando percebem que não são do seu tamanho.

— Os chapéus são todos diferentes — diz um deles. — Eu não tenho chapéus todos iguais. De qualquer modo, são mais ou menos

todos daquela região e devem fazer o seu efeito.

O professor sorri ao ver alguns deles com os chapéus postos.

— Queridos voluntários, há mais.

O professor tira um dossier da mala com várias folhas de poemas orientais,

levantinos e gregos. Estão em esperanto, pois passou vários anos, como passatempo, a fazer traduções de obras clássicas.

— Está tudo em esperanto, com a respectiva tradução portuguesa para vossa

edificação. A velha é quase surda, mas não devemos facilitar. Vocês lerão as poesias em esperanto, o português é só para perceberem do que se trata. Se ela ouvir alguma coisa, julgará ser hebraico. Vamos fazer agora um pequeno ensaio precedido de uma exposição do modo como o esperanto deve ser pronunciado. Começaremos pela sequela da Odisseia, e que os deuses nos ajudem.