Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 56
Ela obedece e tira as cuecas, mas, na maior parte do tempo, já não o suporta. Ele sussurra-lhe alguma informação essencial sobre roupa interior e sobre aquele momento em particular:
— É que as mulheres nem sempre usaram cuecas. Cuecas são uma coisa
recente, Rosa, muito recente.
— Eu sei, a minha avó... Não interessa.
Rosa põe as cuecas dentro da mala.
— A moda começou com prostitutas parisienses (a mão de Borja vagueia pelas
virilhas dela), já perto do século dezanove, e daí até essas que usas foi apenas um passinho.
As mãos do professor fartam-se daquilo rapidamente. Borja saca de um cigarro
do maço, acende-o e, quando o leva à boca, sente um cheiro familiar nos dedos, a sexo de mulher. Expele o fumo contra a cara de Rosa enquanto murmura no seu tom mais sensual, tendo na barba ainda bocados de erudição do jantar:
— Trimetilamina, Rosa, é o que eu tenho nos dedos e nas unhas que te tocaram
por baixo da saia. É a substância que é comum ao peixe que se começa a putrefazer e aos líquidos vaginais. Há uma grande afinidade entre os odores de Afrodite e o peixe velho. É como se a primeira mulher tivesse nascido sereia e de repente a parte de baixo, por qualquer sortilégio e para felicidade do varão, tivesse secado, apodrecido e caído, e, em sua substituição, tivessem crescido umas pernas. Mas a memória da sua primeira condição, a de seres aquáticos — não é essa a condição de todos nós, que somos criados nesse mar mediterrâneo chamado placenta? —, ainda permanece, teimosa, e faz a sua mais exuberante aparição aquando das lutas veniais, a altura de geração. O búzio leva consigo o barulho da onda da mesma maneira que a mulher leva o cheiro do peixe. Depois imita o mar com a placenta. E há sempre um mar de qualquer espécie quando se fala em geração.
— Por falar em geração — diz Rosa —, estou grávida. O professor fica estarrecido, mas treme de felicidade.