Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 2 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 1

Antónia agacha-se na rua e o chão vai-se enchendo com o som da urina acastanhada. O sol cai a pique e todas as janelas de todas as casas estão fechadas para dentro, deixando a aldeia sem ninguém, os largos vazios como fotografias velhas.

Rosa está com a avó, e sente muita vergonha de estar ali no meio da rua, junto

dela. Afasta um pouco os pés quando a urina lhe toca as solas dos sapatos, mas não pode afastar-se tanto como desejaria, pois Antónia agarra-lhe o vestido para se equilibrar melhor.

Ali, e em situações como aquela, é quando sente mais falta do avô. Se ele ainda

fosse vivo, as coisas seriam diferentes. Nessa altura vem-lhe à memória o dia em que ele se atirou para dentro do poço.

Rosa tinha quase cinco anos quando o avô, com hálito de aguardente, lhe disse

que já voltava, que não demorava nada. E de seguida coxeou até ao poço, deixando-se cair de cabeça. O corpo bateu nas paredes de pedra, pois era Verão e havia pouca água. Rosa ficou parada, sem saber o que fazer, mas depois de alguns minutos com o corpo a tremer debaixo do sol, dirigiu-se até ao murete e chamou por ele. Quando a avó a encontrou, ela ainda o chamava. O velho boiava lá em baixo, com um braço torcido por cima da cabeça e sem parte da camisa, que ficara agarrada às paredes do poço.

Parece que a morte vem sempre à tona de água.

 

Ao fundo, uma nuvem de poeira anuncia a passagem da guarda. O cabo conduz com o braço de fora e com um cigarro na boca. A seu lado, o sargento Oliveira assobia ao mesmo tempo que bate com as mãos nas coxas, a fazer uma espécie de percussão. Param numa berma, junto ao calor do princípio da tarde, perto de uma oliveira acinzentada cuja sombra mal chega para ela mesma. O cabo sai do carro e encosta-se à porta. O calor do metal faz aparecer algum calão na sua boca. Desencosta-se num pulo e cospe para o lado. No chão há uma raposa morta e o guarda vira-a ao contrário usando a ponta da bota. Não há sangue e quase não há insetos, exceto umas poucas formigas junto aos olhos e na boca do animal. Acabou de morrer, pensa. Nem sequer cheira mal. Pega-lhe na cauda, põe a cabeça dentro da janela, e diz:

— Acabou de morrer atropelada.

— És parvo? Deita isso fora.

O guarda ganha balanço com a mão esquerda e atira o zorro por cima de uma

oliveira. O cadáver bate num ramo, fica preso entre as folhas por uns segundos e cai em cima de uma vedação de arame farpado. O sargento Oliveira sai do carro e acende um cigarro, põe uma bota em cima do pneu traseiro e apoia os braços no joelho. Quando acaba de fumar, os dois guardas entram no carro e dirigem-se para a aldeia. Passam pelo cemitério, conduzindo muito devagar até ao largo do jardim. Os correios acabam de abrir e Manuel Moita dirige-se para lá. Tem oitenta e três anos, Alzheimer, e vai aos correios várias vezes por dia para saber se tem correspondência. As pessoas têm paciência e lamentam aquela insistência que nasce da solidão e da doença.

Os guardas sorriem quando o veem. O cabo buzina enquanto o sargento Oliveira

acena para o velho, que se assusta, encostando-se à parede. Então, no meio da confusão da sua cabeça, parece reconhecer aquelas caras e também acena, retomando a caminhada, mas em sentido contrário. Já não se lembra de que ia aos correios e volta para casa. Antónia ainda está acocorada, agarrada ao vestido da neta, quando o carro da guarda se aproxima. O cabo quer parar e sair.

— Deixa a velha em paz — diz-lhe o sargento. — Está a mijar na rua.

— Não sabes quem é, pois não? Estás cá há dois anos e ainda não ouviste falar

da Antónia?

— Não.

— Um dia conto-te.

— Conta agora.

— Encosta o carro aí na sombra.

O sargento acende um cigarro e atira o fumo para fora da janela. — Há uns anos houve uma série de assassinatos aqui na zona. Todas as vítimas

tinham objetos do quotidiano espetados no corpo. Um homem com uma colher de pau enfiada no pescoço, uma mulher com cacos de uma tarefa de barro espetados ao longo das coxas, coisas dessas. O capitão andava obcecado com os crimes e desconfiava do marido da Antónia, o Gago, que era ganadeiro. O capitão, sempre que o via nos campos, metia-o no jipe e levava-o para o posto. Depois espancava-o. Uma das vezes estendeu-o no chão e passou-lhe com o carro por cima de uma perna. O homem ficou coxo para o resto da vida e deixou de conseguir trabalhar. O Gago andava desesperado, cheio de medo, e um dia atirou-se para dentro do poço lá de casa. Estava com a neta, que viu tudo. A gaiata não tinha mais de cinco anos. Ela e a avó ficaram a viver de umas pensões miseráveis e de alguns legumes da horta. Agora, a velha quase não consegue trabalhar a terra, e eu acho que devem passar fome. Foi tudo um grande erro, até porque dois meses depois da morte do Gago, descobre-se o assassino, ou melhor, a assassina. Era a mulher do capitão. Uma história louca. Imagina que ela só matava para ter a atenção do marido. Por isso é que usava objetos do dia a dia. Quando ela casou com o capitão, como em quase todas as relações, havia ali muita paixão. O capitão de vez em quando oferecia-lhe flores do campo e levava-a a bons restaurantes a comer caça ou marisco. Mas como normalmente acontece, a coisa foi-se diluindo na rotina e já não havia ali relação nenhuma. Ora, daquela maneira, a mulher conseguiu fazer com que o capitão voltasse a pensar nela, que só pensasse em encontrá-la, andasse obcecado. Antes não lhe ligava nenhuma, mas agora ela tinha conseguido voltar a ser a razão da sua existência. Sem ele saber, claro, que o objeto da sua obsessão era a própria mulher. Mas ela não se importava com isso, pois tinha voltado a sentir-se desejada. Estava completamente louca. É isto que faz a solidão. Quando o capitão soube nem pestanejou. Sacou da pistola e deu um tiro na própria cabeça. Até na ventoinha do teto havia bocados do capitão.

 

O cabo, depois de ouvir contar a história, liga o carro e dá um estalido com a língua.

— Está na hora de voltar para casa — diz.

Ao fundo, Antónia e a neta caminham de mãos dadas. Junto à estrada há uma

estátua da Virgem, com as mãos postas em oração. Quando tinha três anos, Rosa, ao ver a estátua com as mãos naquela posição, julgava que a Santa batia palmas. Agora, claro, já não pensa assim.