Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 34 de 73

Páginas do PDF

Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 33

Quando entrou para a guarda, o sargento Oliveira era tão gentil e bondoso que o chamavam de “anjo da guarda republicana”, mas aos poucos a vida acabou por moldar o seu caráter de maneira diferente. Começou por sentir revolta contra algumas injustiças, algo perfeitamente normal para quem tem uma natureza consideravelmente bondosa. Aos poucos, a revolta foi-se transformando em ódio, em vontade de dar pontapés na injustiça toda. E nas pessoas que brincam com a lei, com os costumes. Foi bebendo demais, foi-se corrompendo aos poucos, primeiro sem perceber, ingenuamente, depois justificando esse comportamento como algo inevitável, algo que tem de ser feito.

Sente-se humilhado pelo professor Borja. Sabe que é ele que pinta o muro da

inglesa, toda a gente sabe isso, mas ainda não conseguiu apanhá-lo em flagrante.

Na rua, passa um romeno que vende tudo o que não interessa, pois o que

realmente interessa não se vende. Cumprimenta o professor, que está a limpar o suor da testa com um lenço branco. O romeno empurra pela rua acima o seu carrinho de madeira cheio de coisas empilhadas, até desaparecer numa esquina.

O sargento sai do café a ajeitar as calças e a entalar a camisa. Arrasta as

botas pelo passeio, pelo alcatrão, e aproxima-se do professor, mandando-o entrar no carro.

A tarde derrete com o calor e as oliveiras parecem de prata. O sargento conduz

até a um morro e para o carro à sombra, desligando o motor. Abre a porta do carro e manda sair o professor. Tem vontade de o espancar e faz um esforço para se conter, cerra os punhos e esfrega os dentes de cima contra os dentes de baixo. Mas não se contém e, quando o professor se prepara para dizer qualquer coisa, dá-lhe um estalo na boca com as costas da mão. Os lábios do professor ficam vermelhos como uma mulher demasiado pintada.

— O muro da inglesa vai continuar branco — diz o guarda. — Não quero ouvir

mais nenhuma queixa do Rato.

O sargento dá um pontapé no pneu do carro para não o dar no professor. Este

está com as mãos na boca e o sangue escorre-lhe entre os dedos. O guarda entra no carro, liga a ignição e deixa-o ali, no meio do campo, com as mãos na boca, no meio da poeira que os pneus levantam.