Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 31
A noite começa o seu trabalho de escuridão, vai iluminando o dia com as suas trevas. Rosa está sentada no alpendre a ver a luz desfazer-se enquanto põe na boca, como um caramelo espanhol, a pedra que apanhou quando se deitou pela primeira vez com Ari. Fecha os olhos e sente o cheiro das flores, aperta as coxas uma contra a outra. A avó chama-a e Rosa abre os olhos lentamente, tira a pedra da boca e volta a arrumá-la dentro da bolsa de couro. Sacode a saia e entra em casa perseguida pela noite. A avó pede-lhe água e Rosa tira o cocharro que tapa a bilha de barro e dá-lha à boca, pondo um pano por baixo do queixo para que não se molhe. Mal ela acaba de beber, limpa-lhe a boca com o pano e devolve o cocharro à boca da bilha.
— Estava a sonhar com janelas sem casas, só com campo — diz Antónia. — Foi
quando me deu a sede. O teu avô é que havia de gostar disto, deste campo todo que eu tinha dentro do meu sonho. Quando nos casamos, o meu paizinho, que Deus o tenha, perguntou-me se eu queria um vestido bonito e eu disse-lhe que não, o que eu queria era roupa suja do trabalho. Ele mandou fazer à mesma um vestido branco e eu fui muito bonita para a igreja. Mas o que eu queria era a roupa suja do trabalho, que isso é que faz uma pessoa.
Rosa já ouviu aquela história muitas vezes, nem toma atenção. Ajuda a avó a
levantar-se e leva-a para a cama. A avó apoia-se no braço de Rosa e vai dando uns passos minúsculos e arrastados.
— Já não sei o que digo, tenho os pensamentos a virem-me de lado. Antónia senta-se na cama, e Rosa despe-a. Começa por lhe tirar os chinelos e
as meias, depois o resto das roupas. Os pés de Antónia estão inchados, há veias a rebentarem de azul, e Rosa faz-lhes uma massagem. Quando a avó adormece, ela tapa-a e apaga a luz.
Não tem nada para fazer, por isso liga a televisão, senta-se a ver um filme. A
certa altura, vê uma luz projetar-se contra a parede de cal branca, vira-se para a janela e levanta-se. É o pastor.
Abre a porta com cuidado e vê-o no alpendre, com a sua lanterna. Sentam-se no
chão de cimento, ele dá-lhe uns beijos, ela sente o seu cheiro do campo e fecha os olhos. As mãos dele apertam-lhe o peito, andam pelas coxas, e ela diz-lhe que ali não. — Qual é o problema? — pergunta ele.
— Nada. A minha avó pode acordar.
— Isso nunca foi problema. Ela mal anda. Demorava horas a chegar do quarto
até aqui.
— Não quero e pronto.
— É o velho, não é?
— Qual velho?
— O professor.
— És doido?
— Anda sempre por aqui. Não gosto dele.
Rosa não diz nada, e Ari põe-lhe a mão entre as pernas. Rosa afasta a mão do
pastor.
— É o cabrão do velho — diz ele enquanto se levanta. — Se o encontro por aqui
torço-lhe o pescoço como faço às galinhas.
— Não sejas parvo.
— É o velho, que eu sei.
Rosa fica a vê-lo ir-se embora, a luz da lanterna a desaparecer por trás da
paisagem. Tal qual o sol costuma fazer.