Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 22
A alegria gasta-se como as velas acesas, e apaga-se. É isto que acontece a muita gente ao longo da vida. Outras apagam-se mais cedo, que é o que Rosa sente, mesmo quando tem motivos para estar feliz. Aos sábados, quando volta para casa, olha para os campos pela janela do autocarro. Sai na aldeia, no meio do largo da igreja, e começa a caminhar para o monte. A natureza porta-se sempre como uma inimiga: com o calor do Verão e o frio do Inverno. Com a chuva, com o vento.
Rosa entra em casa e vê a avó sentada numa cadeira, junto à lareira, apagada
há horas. Há uma poça de urina por baixo da cadeira e Rosa sente o peito apertado. Corre para a avó, que acorda nesse instante, e abraçam-se. Rosa enche a banheira, despe a avó, e deita-a lá dentro. Choram as duas sempre que isto acontece, mas por vezes também riem. Rosa não sabe por que as coisas sucedem desse modo, e nunca sabe como termina um banho, se em tristeza profunda ou numa alegria histérica.
Em casa é mais fácil adormecer, mas mesmo assim Rosa lê sempre um ou
outro parágrafo de um dos seus westerns preferidos: “Harold Estefania entrou na cidade. Os homens afastavam-se quando ele passava e as mulheres suspiravam, sentindo o coração a cavalgar para fora do peito. Os anjos de Deus voavam ao seu lado como moscas. Harold Estefania descavalgou junto ao saloon e entrou, com as pernas arqueadas, as botas cheias de pó — como se fossem um sótão velho — e um fósforo na boca, a bailar por entre os pelos do bigode. O pianista parou de tocar e os homens pararam de beber. ‘Onde é que ela está?’, perguntou Harold Estefania, levando a mão direita ao coldre.”
No dia seguinte, mal começa a manhã esverdeada pelo pasto, Ari sobe o monte
das oliveiras e senta-se debaixo de uma. Ao longe, ouve o trautear do regato, num som imóvel de água a correr, como um cenário de madeira colorido pelo ruído de fundo. Atira uma ou duas pedras, para se ambientar. Tira o chapéu e limpa o suor da testa com o antebraço. Estende as pernas ao calor do dia, e olha para o céu através dos ramos.
Está calor, nesse dia. Choveu no dia anterior, o gado está contente, e a
Primavera parece despontar como o adolescente desponta de uma criança.
Tira, do alforje, um queijo de ovelha seco, conservado em azeite. Corta-o com o
canivete e, com a lâmina, leva à boca uma fatia salgada e um pedaço de pão.
Sobrepondo-se ao ruído das águas do regato, surge o silêncio dos pássaros. Já
não cantam. Ari, instintivamente, leva a mão ao cajado de pastor e ergue-se, atento ao ruído da água sem ruído dos pássaros. Para, encosta o cajado ao ombro, limpa as mãos gordurosas às calças. Agarra o pau com firmeza e caminha até às estevas que crescem por ali, e ouve um corpo mergulhar no regato. Suave demais para ser um javali. Afasta as folhas que caem, preguiçosas, de um chorão, e vê um corpo nu. É Rosa. O pastor avança devagar, afastando alguns funchos, e fica parado a olhar para ela.
Rosa sai da água e vê o pastor. Ri-se. Pega nas roupas, corre para ele, e Ari, a
cheirar a carneiro e a queijo e a azeite, agarra-a. Sente a pele dela, olha-a nos olhos e dá-lhe um beijo desajeitado. Os dentes batem uns nos outros, e ela ri-se. Ele fica um pouco irritado, agarra-a pela cintura e fá-la deitar-se na terra. Rosa põe as roupas debaixo da cabeça e abre as pernas. O pastor deita-se em cima dela, que já não ri. Arquejam e misturam os seus cheiros salgados com as margaridas silvestres que despontam corajosas debaixo dos corpos de ambos. O cheiro do azeite do queijo ficará como memória indelével daquela manhã, e de cada vez que Rosa o comer ao almoço lembrar-se-á do pastor que a tomou esmagando margaridas. Para já, sente-o nas mamas, e observa as suas marcas gordurentas a refletir a luz do sol.
Ficam deitados os dois e só quando uma brisa se faz sentir, anunciando o
crepúsculo, eles se vestem.
— A Matilde diz que a vida sabe a ferrugem — diz ela quando se despedem.