Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 57 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 58

O hindu olha para si mesmo. Os membros do seu corpo são-lhe completamente dedicados, mas alguns deles são também um pouco irresponsáveis e bebem demasiado. Um deles é viciado no jogo. A maior parte é muito pobre e alguns são doentes. Parece que uma parte segrega bílis e fel, o que é algo embaraçoso.

Como a Virgem que se esqueceu de que era a Virgem, o brahmin também se

esqueceu das suas reencarnações, esqueceu-se de que tinha sido um peixe e um cão e um mercador florentino e um zapatista mexicano e um monge monofisita e uma bela circassiana de enormes cabelos e uma nobre de Singapura que tinha mais de três mil gatos. Agora está cheio de migas de rins e miolos, de migas de espargos selvagens, de linguiça alentejana e de morcela para assar e morcela para cozer, de farinheira preta e de rojões e rechina da matança do porco, de borrego no forno e nacos de vitela e de queijo de ovelha mergulhado na sopa de beldroegas. O seu corpo, que era desprovido de carne, feito de orações e reencarnações, agora é mais pesado do que Ganesh, o deus elefante. Anda com dificuldade, com as pernas afastadas para não assar as coxas demasiado gordas. Quando vê pobres, pensa: nada que se compare a Calcutá ou a Bombaim. De resto, a pobreza nunca o afetou, pois é um estado transitório, uma ilusão do deus Maya. Mas desde que vive no Alentejo começou a reparar nela. Talvez devido ao fato de haver muito menos pobreza do que na sua terra natal. Quando falta alguma coisa, reparamos nisso com mais facilidade do que quando estamos rodeados dessa mesma coisa. É por isso que Deus gera esta contradição: os que creem Nele padecem de uma fome imensa pois Ele não existe, não se vê, não tem forma, e são como uns esfomeados sem comida, esfomeados com fome infinita; outros, que não creem nele, não reparam, não veem, pelo simples motivo de que ele está em todo o lado, como a pobreza em Calcutá. E assim o brahmin vai andando com as pernas afastadas para não ficar cheio de comichão no interior das coxas.

 

Rosa chega cansada à aldeia da inglesa, pois teve de caminhar mais de seis quilômetros sob o sol da tarde. Um gato desfaz um pombo. Rosa olha para o animal a comer a carne ensanguentada cheia de penas à volta. O hindu diz-lhe:

— O gato quer voar, mas é como os homens que, para entender as coisas,

matam-nas, abrem-nas. Querem voar e para isso engolem coisas. Andamos todos errados, somos como os gatos, a comer pássaros para voar. Em vez de arranjarmos maneira de ser como eles, de compreender os pássaros. De abrir os braços em vez de abrir a boca. É preciso compreender o outro.

Rosa diz-lhe: — Anda tudo a comer tudo. É mesmo assim. — Mas não devia ser — diz o indiano.

— Se fosse como diz, tal como o gato deveria abrir as patas e voar, o pombo

deveria aprender a ter dentes e a devorar os gatos. É preciso compreender o outro.

O brahmin fica uns momentos parado, a pensar. Depois dá uma palmada na

cabeça de Rosa.

 

Os sinos tocam, mas as badaladas têm dificuldade em atravessar o calor da tarde.

Rosa caminha até à casa de Miss Whittemore. Sente o chão a agarrar-se-lhe aos pés, como se andasse a terra e as suas pernas estivessem paradas. Ana Maria abre-lhe a porta e manda-a esperar no salão que é um verso, o Verso Maior. Rosa senta-se numa cadeira de forro branco, demasiado branco para a sujidade da sua saia, que pinta o assento de terra. Tenta sacudir o pó, um pouco desajeitada, mas acaba por fazer pior e o forro, tão imaculadamente branco, fica com uma sujidade que parece uma pincelada arrastada, expressionista. Rosa sente-se mal e esfrega os dedos com tanta força no tecido que chega a queimar-se.

Quando morre alguém, a inglesa abre um Porto do ano do nascimento da pessoa

a ser enterrada e bebe-o com os familiares. Miss Whittemore tem uma cave absolutamente fascinante no que respeita a vinhos. Todos os habitantes que, por acaso ou circunstância, veem os vinhos deitados — a descansar na garrafeira secular —, temem-nos, como temem a morte e a dor da perda. Quando olham para as prateleiras com vinhos do ano do seu nascimento, veem a sua própria efemeridade ali guardada, uma vida tapada por uma rolha de cortiça. E receiam, caso a inglesa abra, por algum motivo, um vinho do seu ano, que possam cair fulminados, atingidos pelo destino.

Enquanto Rosa tenta apagar a nódoa que a sua saia provocou no forro branco, a

inglesa entra a beber um Porto que, na verdade, é a morte do padeiro.

Miss Whittemore senta-se, mas Rosa só consegue pensar no forro que era

branco e agora está sujo. Tenta tapar, com o corpo, a nódoa maior, mas sabe que não consegue esconder tudo. Além disso, imagina o que irão pensar dela depois. Mexe-se, nervosa, na cadeira e Miss Whittemore pergunta-lhe o que pretende. Rosa diz-lhe que deseja apenas agradecer-lhe por tudo o que está a fazer pela sua avó. Enaltece o ato altruísta e esclarece: ficarei a dever-lhe a vida.

Os raios de sol entram pela janela e Miss Whittemore protege os olhos

semicerrando-os. Rosa pensa: é melhor continuar a falar, se não tenho de me levantar e a inglesa perceberá o que fiz neste forro tão branco. Não me posso calar.

Rosa desfaz-se em agradecimentos e quando estes se tornam impossíveis de

prolongar, decide falar do professor, das suas ideias, do que professa. A discussão alonga-se e adensa-se. Rosa coça a cabeça, pois para ela o mundo é mais complicado do que todos aqueles pensamentos que só servem para tornar as coisas simples. E as coisas não são simples, são difíceis. O mundo é uma grande dificuldade. Aliás, é uma nódoa num forro branco.

— E o professor — pergunta Miss Whittemore — seria capaz de dar a sua vida

pelas suas teorias, pelas suas ideias? Eu acho que sim, mas o que é que isso tem a ver com a biologia de que ele tanto fala? É ela que nos ordena o sacrifício, dirá o professor. Mas e os monges que abdicam da reprodução carnal para se dedicarem a fertilizar o espírito. Muitos de nós fazem o mesmo com as ideias. Não morremos só pelos nossos filhos, não morremos só pelos nossos genes. O nosso Eu não é o sistema imunitário, nem uma bolinha com ácido impronunciável, identificamo-nos com as nossas ideias e isso é o nosso Eu. Mas o professor não concorda, diz-me que uma pessoa se prolonga nessas direções para mostrar a sua generosidade. Gostamos, diz ele, de reconhecer pessoas inteligentes e capazes e, acima de tudo, generosas. Serve esta bonomia apenas o propósito de acasalar, de escolher o melhor parceiro, alguém capaz de dar a vida pela família, pela prole. Mas e quando decidimos morrer por essa bonomia? O professor garante que é um defeito da biologia, mais uma prova de que Deus não existe: a natureza está longe de ser perfeita. Mas eu, Rosa, que nunca tive filhos e tenho asco a tudo o que é carnal, não penso assim e daria a vida por outras coisas que não dependem da minha compaixão para com a humanidade, mas sim com o perpetuar de uma alma, de uma ideia. Um pensamento em vez de uns genes. Se me perguntares, sob tortura, o que quero que sobreviva de mim, digo-te: é um pensamento. Não é mais nada. Este corpo é miserável, envelhece e acumula cheiros, mucos e tudo o que nos envergonha. Até as plantas fazem melhor, tão paradas que elas são, mas são capazes de perfumar. Nenhum animal é capaz disso, o nosso corpo é uma fonte de tragédias. Se me perguntares, é a ideia que quero salvar e não o corpo. Mas não é isso que faz o professor, embora não o admita? Ele anda a pintar o meu muro. Quer, com isso, perpetuar os seus genes antiquados? Está velho demais para isso. O que pinta nas paredes é a sobrevivência da sua cabeça e não a do seu corpo.

— Não sei — diz Rosa. — Só vinha cá agradecer, mas já que me diz isso,

também lhe quero dizer uma coisa que me disse Harold Estefania, capítulo quatro de A morte não ouve o pianista, uma coisa que pode ser isso que me está a dizer, mas com a qual eu não quero concordar para que a vida não se torne simples: “O homem é a estrada entre o pôr do sol e o cavalo que ele monta. O cavalo é o corpo, o homem é a sua alma, o sol é o destino.” Mas não julgue, Miss Whittemore, que isto explica alguma coisa, não é isso. A vida deve continuar muito complicada. Estas explicações só servem para nos fazer doer a alma e os pés e a cabeça e para nos fazer envelhecer a mijarmo-nos pelas pernas abaixo. Posso ser burra, mas não sei do que falo. O Gil Fazeres morreu a partir do momento em que começou a perceber as coisas quando batia com a cabeça nas lâmpadas. Pumba, ficou maluco, era tudo simples, tinha percebido tudo. Um dia, disse-me (enquanto puxava a pele da maçã de adão): já percebi isto tudo. Tudo o quê? Perguntei eu. As searas? Não, disse-me ele, mais do que isso, o universo. Eu dei-lhe a mão e comecei a chorar porque isso era uma coisa muito triste. E tinha razão, porque ele morreu pouco tempo depois.

— Está tudo preparado para receber a sua avó. — Era isso que eu queria agradecer.