Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 54 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 55

Existem amizades teimosas, que estão constantemente a ser reatadas, apesar de todas as atribulações a que foram sujeitas. Há feitios que não se suportam e, apesar disso, as amizades perduram. Rodolfo aparece de surpresa em casa do professor Borja, porque quer dar-lhe a conhecer a sua mais recente paixão: uma aluna chamada Joaninha. Quando Rodolfo lhe aparece à porta, o professor fica admirado, pois não se falam há anos. O amigo do professor apresenta Joaninha e Borja vê-se obrigado a apresentar Rosa, que está sentada num canto da sala, sem saber o que dizer.

— Explicações de matemática — diz o professor. — Os jovens de hoje bem

precisam. Já não sabem o que é um número. Os gregos antigos atribuíam-lhes qualidades, características filosóficas, mas desde Roma que só se veem números nos números. Só quantidades.

O professor olha para Joaninha de alto a baixo, para as unhas pintadas de rosa

na mão esquerda e de preto na mão direita, para a cara delicada, os cabelos loiros e compridos, soltos como animais selvagens. Enfim, nada comparável a esse prazer bucólico chamado Rosa.

— Vamos jantar? — pergunta Rodolfo.

Dirigem-se os quatro a uma venda da cidade mais próxima, cuja melhor

decoração são os petiscos servidos como entradas. O professor pede cordeiro (uma especialidade, vocês vão adorar) para os quatro e o jantar vai decorrendo naturalmente, tendo Borja o cuidado de não cometer o mesmo erro que cometeu há trinta anos com outra aluna de Rodolfo, a tal Rebeca cujo sexo estava, de um modo misterioso e sublime, conectado com a filosofia de um cardeal alemão da Renascença. Desta vez, está apaixonado por Rosa, só tem olhos para ela e não pretende citar Nicolau de Cusa.

As conversas prolongam-se por memórias do passado e acabam por divergir

para outros temas. Os homens falam entre eles enquanto as duas raparigas se mantêm mais ou menos caladas. Num momento de silêncio, raro, Joaninha, animada por poder falar e ser ouvida, comenta qualquer coisa de astrologia, qualquer coisa que leu no jornal, num horóscopo. Rodolfo sorri por cortesia, mas Borja, ajudado pelo álcool e pela repulsa que sente pela charlatanice, sente-se expansivo o suficiente para falar com iniciais:

— A, T, C, G! — diz ele com o seu ar mais profético. — O que importa é isto:

A, T, C, G!

Rosa, num gesto mecânico, com um pestanejar lento, olha para Borja, depois

olha em frente para levar aos lábios um copo de sumo. Demora-se com ele na boca e quando retira o copo, fica com umas gotinhas teimosas a pairar nos pelinhos do buço. A, T, C, G, pensa ela.

O professor Borja, depois daquela explosão de letras, vira a cara peluda, ora

para Rosa, ora para Joaninha, ora para Rodolfo, sempre com um sorriso mal disfarçado pela imponente barba. Arregala os olhos sempre que fixa um deles, à espera de alguma reação. Todos se abstêm de comentar as suas letras do alfabeto.

— Uns têm a testa em bico — diz o professor com o entusiasmo de um

homem apaixonado, um homem para o qual não existem retas paralelas —, outros têm um olho maior do que o outro, um é gordo, outro é baixo. A, T, C, G! Esquece a astrologia, Joaninha! Não olhes para cima, olha para dentro. É no coraçãozinho das células que está o motivo para isso tudo, nos genes. Vários milhares que se repetem por miríades de células pelo corpo todo. E do que é que estes genes são feitos? — exulta Borja. — Ácido desoxirribonucleico! De-so-xir-ri-bo-nu-clei-co! ou seja: ADN! e este é composto por adenina, timina, citosina e guanina, ou seja A, T, C, G. Nada de astrologias. Quando se nasce, já um olho é maior do que o outro e já a testa é bicuda, já uma pessoa é obediente ou, ao contrário, inteligente.

O professor Borja ri, come e fala, tudo ao mesmo tempo. De vez em quando,

para para limpar o azeite e o vinho da sua farta barba de patriarca.

— Não está escrito nas estrelas, mas no mais profundo de nós mesmos, ad

imo, gravado cá dentro. — E bate no peito. — Foda-se, entornei o vinho.

Rodolfo sai entre a terceira e quarta sílaba da quarta vez que

“desoxirribonucleico” é mencionado. Está indignado. Não só o homem é produto de um ácido impronunciável como o seu melhor amigo é capaz de apoucar a sua acompanhante. Leva Joaninha arrastada, ela que não compreende muito bem o que se passa. O horóscopo que leu não previa nada disto.

O professor olha vagamente para a debandada, sem perceber que o motivo para

tal êxodo bíblico é uma coisa genética. Falar do ADN, do ácido impronunciável, pode fazer extinguir a melhor das amizades.

— É triste como se sabe tão pouco sobre o nosso interior. Não achas, Rosa? — Acho, professor.

— Falei do ADN, tinha de corrigir aquela Joaninha, corrigir as sacudidelas

supersticiosas que contaminam a clareza do raciocínio e do pensar. Um homem de ciência é uma verdade cercada de estupidez por todos os lados. O segredo está cá dentro, não como os místicos de supermercado gostariam, mas está cá dentro. No intestino das células, coleantes, as duas cordas gêmeas enroscam-se num diálogo erótico como dois deuses, como os dióscuros. É tudo código, cabalisticamente científico.

— Cabalisticamente — concorda Rosa, com olhar de casa de campo. Borja engole um pedaço de cordeiro. A gordura escorre-lhe pelos bigodes. Limpa-

a com um gesto lento. Pede a conta e saem os dois. Rosa sente-se desconfortável.

Entram no carro e o professor sussurra-lhe: — Tira as cuecas.