Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 8 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 7

Miss Whittemore dorme dentro de um cachalote que um antepassado seu caçou nos mares do Sul. A ossada da baleia mede dezasseis metros e a sua cama, instalada entre as costelas, tem quase três metros de comprimento. Quando acorda, bem como ao deitar, bebe um chá de jasmim-pérola importado de Singapura, com duas gotas de leite: uma gota de leite de burra e outra de leite de porca. Veste-se e penteia-se antes de descer para o salão.

A casa principal tem dois andares, mas Miss Whittemore é dona de toda a

aldeia. Na década de 1980, quando a povoação era habitada por apenas um casal, Miss Whittemore comprou todas as casas do lugar, todos os terrenos rurais e urbanos. Deu início à recuperação dos edifícios e, quando viu terminado o restauro, encomendou habitantes, a maioria de zonas limítrofes. Quis juntar à aldeia algumas personagens de relevo intelectual, por isso achou que seria edificante mandar vir um sábio hindu e um feiticeiro iorubá, acrescentando a estes um padre (que morreu após o primeiro almoço na aldeia) e o professor Borja, a contraparte laica e ateia. A desculpa eclética e a educação humanista, contudo, são apenas um disfarce para as saudades que tem das colônias e dos lugares em que viveu na sua infância, nomeadamente a Índia e a África Ocidental.

Miss Whittemore cruza as pernas e suspira. Está sentada à oriental em cima de

uma cadeira e, com os braços apoiados numa pesada mesa de carvalho, olha para a parede em frente. Depois dá um grito e chama a criada, que aparece ofegante, a perguntar o que se passa, se aconteceu alguma coisa, algum acidente.

— Não aconteceu nada — diz-lhe Miss Whittemore. — O que eu quero saber é

onde estão o indiano e o nigeriano e o professor.

A criada encolhe os ombros, não faz ideia. Miss Whittemore contratou um sadhu

indiano e um babalaô nigeriano para alegrarem os seus serões com a sabedoria própria de cada uma das suas religiões. Além destes, obriga o professor a um almoço semanal, a que chama de Os Novos Deipnosofistas. O professor abomina estes encontros, enquanto os outros dois sentem uma repulsa quase idêntica mas que sabem aceitar, pois há algo no seu feitio, mais do que na sua religião, que os faz, de certo modo, tolerantes para com inglesas que dormem dentro de baleias. Adê Obá serviu o pai de Miss Whittemore quando este viveu no Gana. Vem de uma velha família de sacerdotes, e um dos seus avós foi um dos mais conhecidos adivinhos da região. Outro dos seus antepassados morreu na Alemanha. Adê Obá é um negro alto, de braços largos e cabelo grisalho. Tem dois cortes rituais nas têmporas e usa anéis de prata com decorações típicas do norte de África, do Mali e da Mauritânia. Miss Whittemore aprecia muito as canções que ele canta, acompanhadas por um tambor e um chocalho, instrumentos com nomes iorubás que a inglesa insiste em pronunciar erradamente, apesar de o sacerdote nigeriano os chamar simplesmente de tambor e chocalho. O hindu já não é tão magro quanto era quando veio para o Ocidente e aos poucos foi-se interessando mais pela gastronomia local do que pelo panteão oriental.

Ana Maria, a criada, está junto a Miss Whittemore. Está parada como uma

estátua de barro, mal pintada, mal acabada. O seu olhar parece uma daquelas torneiras que não param de pingar. Diz, para si mesma, que se avizinha uma catástrofe. Vê isso nas manchas da parede, pois tem a mania, ou o dom, de interpretar as manchas das paredes, dos fungos, do salitre. O maior pesadelo da construção civil é o seu oráculo. Miss Whittemore, ao ouvi-la murmurar, pergunta o que se passa. Ana Maria não responde, está concentrada.

— Do que é que está à espera? — pergunta Miss Whittemore. — Desculpe? — diz Ana Maria, que apesar de estar a olhar para a umidade da

parede da sala não se apercebeu do problema presente. Muitas vezes acontece assim: conhecer o futuro dá cabo do presente.

— Do que é que está à espera?

— Não compreendo...

— Para chamar esses três? Onde é que eles estão? Procure-os e traga-os para

almoçar.

Ana Maria sai da sala e fecha a porta demasiado devagar. É a sua maneira de

protestar: quando faz alguma coisa contrariada, fá-lo com rigor e método maquinais. Com gestos contidos, lentos e precisos, levando Miss Whittemore a irritar-se para dentro, pois sente-se incapaz de repreender a criada que está a executar aquilo que ela ordenou com uma perfeição absoluta. Ana Maria, desta vez, para em frente à porta, muito reta, ergue o braço direito num movimento geométrico, roda ligeiramente a mão, aperta a maçaneta durante dois segundos, aclara a garganta, puxa a porta para si. Larga a maçaneta e encosta o braço ao corpo, dá dois passos em frente. Roda cento e oitenta graus ficando de frente para Miss Whittemore — que está muito vermelha, a engolir sabe-se lá que vernáculo —, ergue a mão esquerda com a mesma geometria com que antes moveu a direita e segura na maçaneta. Fica assim dois segundos antes de começar a puxar a porta para si até se ouvir um clique. Miss Whittemore sente uma dor logo abaixo do esterno, que é a raiva a ser digerida.