Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 70
Sempre houve quem desse a vida por ideias, em vez de manter o Eu fechado dentro do corpo, sempre houve quem amasse alguém que não partilha o mesmo sangue, como um cão, ou uma amante estéril, ou um vinho especial, ou um pensamento. Dar a vida por uma destas coisas faz com que a sua identificação, o seu Eu, esteja fora de si e não se limite a uma prisão genética. Rosa pensa nisto mas com as mãos, pensa nisto de um modo prático, pensa nisto com uma faca.
A vida não são só os filhos, pensa Rosa, enquanto esfrega o ventre. Há coisas
depois disso, como existe campo à volta da nossa casa. Gostei do que a inglesa me disse: Deus é um gesto. Deve ser possível abrir o ventre de um homem e fazê-lo viver, tirar-lhe um filho, não da sua carne, mas do seu espírito. Mas para quê, pergunta Rosa a si mesma, se não o amo? Para quê fazê-lo viver para lá da sua bolinha genética, sobreviver através das suas ideias? Rosa sente vontade de agir, deve ser Deus, deve ser o mesmo impulso que fez aquele veado que ela viu em pequena, ferido de morte, esticar a língua para comer o milho.
Quando Rosa entra no quarto da inglesa, que dorme cheia de sedativos que
fariam acordar cavalos, o professor escreve na parede, concentrado. Rosa agarra a enorme faca de cozinha com uma frieza de profissional. O professor continua de costas a pintar a parede, com a sua arma, o pincel e a tinta, a mais perigosa de todas as armas. Junto à cama, Rosa vê-o pintar o último verso, depois a frase de Harold Estefania, do livro A morte não ouve o pianista. Vê os caracteres negros a aparecerem na parede como uma confissão, como uma faca espetada no coração.
“Morro por amor, sem isso não vale a pena estar vivo. A minha vida foi feita
para se entranhar na tua, como uma faca espetada no coração.”
O professor não ouve a lâmina a entrar no peito de Miss Whittemore. Apesar de
a inglesa estar deitada numa poça de sangue, o professor não repara. Quando se vira, vê Rosa. Fica surpreendido, mas baixa o pincel e abraça-a. Pergunta: o que fazes aqui? Ela sente-se uma parteira e ele, de repente, parece sentir uma coisa molhada a entrar-lhe pelo corpo dentro, como se fizesse Inverno dentro do estômago. Sente uma espécie de solidão e pensa: sempre estive tão sozinho, mas agora as coisas vão mudar, há a Rosa e o nosso filho. Há tempo, ainda há tempo, para me sentar no alpendre a ver uma criança correr no meio das ervas. Rosa segura a faca, toda cheia de metal, contra o seu esterno, por ali adentro, até à morte. Enterra bem a lâmina e deixa-a ficar pendurada no peito do professor, como um quadro pendurado na parede. Ele começa a tombar muito devagar em direção ao chão — um movimento que continuará até debaixo da terra — e estica a mão numa súplica. Rosa afasta-se pois julga que ele quer apalpar-lhe o sexo. Como o veado que, a morrer, a esvair-se em sangue, ainda esticava a língua para comer o milho.
Depois, baixa-se, pega nas mãos do professor e coloca-as à volta do cabo da
faca. Começa a gritar: ESTÁ MORTO, ESTÁ MORTO!
Quando o sargento Oliveira entra no quarto e vê aquela tragédia, toda cheia de
sangue espalhado, fica imóvel, sem saber o que fazer. Que raio se passa aqui, pergunta ele para si mesmo.
Rosa chora e grita, treme descontrolada, ajoelhada por cima do cadáver, cheia
de sangue por todo o lado. O sargento chama-a, ela levanta-se e vira-se para ele, repetindo que o professor está morto, que se matou. O sargento tira o casaco e pousa-o nas costas dela, abraçando-a e dizendo para se acalmar.
O corpo de Miss Whittemore estendido na cama, o corpo do professor estendido no chão, ambos à sombra de dois versos de Diógenes de Oenoanda e de uma confissão saída de um western.