Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 13
O padre Teves, ainda adolescente, informou o pai de que queria ser um profeta como os do Antigo Testamento.
— Serei um profeta para corrigir os povos e os costumes. Foi imediatamente espancado. O pai, que era um livre-pensador, era capaz de
suportar tudo menos a estupidez:
— Não quero preguiçosos na família.
O cinto ia e vinha com a destreza de um metrônomo, cavando-lhe sulcos no
traseiro.
Desse barulho do cinto contra a carne o jovem Teves nunca se esqueceu.
Haveria de pautar a sua vida. Cada bocadinho de palavra usada nos seus sermões trazia um bocadinho de couro. Esse cabedal jamais se desprendeu das suas frases.
— Profeta?
— Sim!
O cinto era só gestos de certezas e mantinha a sua respiração ritmada: para
cima, para baixo, e um som de bife batido entre uma ida e uma vinda.
O pai, depois de cumprido o castigo de cabedal e fivela, depois de mais algumas
acometidas, voltava a colocar o cinto nas calças, pegava na cerveja que deixara a meio e sentava-se no sofá. Ainda se interrogava sobre o que seria aquilo: um filho maricas, ou padre ou o que era.
O jovem Teves sentia-se exalar sabedoria, palavras profundas como poços.
Quando respirava, não era ar que saía, eram aliterações, hipérboles, comparações. Quando respirava, era o cinto a ir e a vir. Ou, pelo menos, ele assim pensava.
— Os meus sermões são de carne — dizia. — De carne e osso. Foi espancado muitas mais vezes. O pai não gostava nada de maricas. Em tempos, o adolescente Teves tivera um marcante desgosto de amor. A
mulher tinha mais nove anos do que ele e trocou-o por um aspirante a oficial da Academia Militar. Um dia Teves passeava com ela no jardim, no outro via-a montar no cavalo do futuro oficial e partir contra o poente, uma silhueta negra, abandonando-o à sua solidão. O jovem militar que lhe levara a mulher, no entanto, impressionara Teves com a sua figura. Parecia um Ion ou outro centauro qualquer, de farda engomada, calças muito justas e bigode aparado com precisão. Mas o que mais marcou o espírito inexperiente de Teves foi a chibata. O cavaleiro, quando partiu com a silhueta que acabara de o abandonar (em direção ao ocaso), dramaticamente batera com a chibata na garupa da besta provocando um trote curto. Uma nova chibatada e já se moviam a galope, no sentido do pôr do sol. Teves não pôde deixar de reparar, com o seu espírito imaturo, na ferida que se abrira na garupa do cavalo, sem dúvida devido a chibatadas que o levavam em direção ao sol. Já em casa, voltou-se para a sua própria garupa e baixou um pouco as calças em frente ao espelho do quarto. Também ele tinha feridas na retaguarda, fruto do vaivém de um cinto de couro e do desejo obstinado de ser profeta como os do Antigo Testamento, cheio de vísceras e capaz de fazer tremer o mundo. Um dia, sentia Teves enquanto passava a mão carinhosamente pelas suas feridas, trotaria e, mais do que isso, galoparia em direção ao sol como um aspirante a oficial da Academia Militar ou um centauro, mas chegaria mais além, à própria luz. Passou a aceitar as dores que o cinto do seu pai provocava na sua garupa como um sacramento mágico. O cinto era a sua chibata, que o faria correr desalmadamente pela vida. De cada vez que o cinto lhe abria as carnes mais tenras das nádegas, sentia-se galopar destino fora. Desde então, Teves passou a viver os espancamentos misturados com êxtases místicos, como uma Santa Teresa de Ávila e, quando puxava as calças para cima, enquanto o pai abria mais uma cerveja, não conseguia evitar uma aura de luz à sua volta e um leve sorriso nos lábios congestionados pela dor.
Teves começou a devotar uma constante atenção àquela área tão desprezada —
ou tão amada — da anatomia. Quando conheceu Rosa e as suas nádegas mitológicas, sentiu que havia ali uma estranha empatia difícil de explicar: aquele aparato traseiro, para ele, não era somente sexo. Havia ali qualquer coisa de esotérico, com uma bochecha para cada lado.
O rabo, qualquer um, do mais achatado ao mais rotundo, serve a verticalidade
humana, aguenta a coluna contra o céu. Mas para Teves, o rabo ferido, fustigado, é que lhe dava impulso, não era o rabo ileso. Os glúteos, os maiores músculos do ser humano, não lhe importavam para esse efeito. Eram as dores e as chagas que sofriam que poderiam fazer erguer o homem à glória de Deus.
Quando bate à porta de Rosa e Antónia, o padre está muito sério. Vem saber
como está Antónia e se precisam de alguma coisa. A velha está sentada, com a gineta ao colo e com o rosário nas mãos, um rosário já gasto pelos dedos e quase sem orações. O padre dá uma palmada afetuosa no rabo de Rosa e chama-a de “a minha herege predileta”.
— Cristo também preferia as ovelhas tresmalhadas, não era, Rosa? — Sim.
Rosa pergunta se o padre quer um chá, mas o clérigo recusa. A avó, que não
ouviu nada, manda Rosa aquecer água para fazer um chá de camomila para o senhor padre.
— O senhor padre não quer.
— Vai aquecer água, rapariga.
— ELE NÃO QUER.
— Não tenho tempo — diz o padre ao ouvido de Antónia, enquanto a gineta se
refugia debaixo da cadeira. — Só vinha saber como estava.
A avó de Rosa agarra nas mãos do padre e beija-as, num gesto que demora um
tempo constrangedor.
— Espero-vos no domingo, na missa — diz ele. — Não sei se conseguimos — diz Rosa. — A minha avó está muito fraca e por
vezes...
— Conseguimos milagres quando nos esforçamos um bocadinho, Rosa.