Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 66
Uma corda estica até ao seu comprimento, mas pode passar uma vida dobrada sobre si mesma, enrolada para dentro. Uma corda comprida pode não passar de um pequeno rolo. A nossa vida também é assim, como uma corda. Por vezes estende-se sobre o abismo, por vezes está enrolada na arrecadação. Pode unir dois lugares distantes ou ficar arrumada, dobrada sobre si mesma.
— Quem tem filhos não morre, dizem os árabes. Rosa ouve o professor com atenção.
— Eu, por vezes, sinto-me vazio. A minha ciência é desprezada. O conhecimento
não interessa para nada. Os conhecimentos é que são importantes. Isto é um país de amigos onde, curiosamente, todos são meus inimigos. Ninguém se digna a perder tempo a ler o que ponho no mundo com toda esta sabedoria que me caracteriza. A sociedade é feita de dinheiro. A carne dela são cotações, cheques, cartões de crédito. Vende-se o que dá dinheiro. O que importa não importa. É o fim dos tempos, o homem volta a ser um macaco. Volta a olhar o porco, cara a cara, e a sentir que se olha ao espelho. É isso o homem. Uma espécie de suíno que, momentaneamente, esqueceu a sua condição orwelliana. Somos todos uns porcos que chafurdam na banca e na economia. A vida não passa de um gráfico de barras, umas estatísticas, probabilidades, projeções. E neste mundo somos todos escravos de notas de todas as línguas.
— Deus deveria dar-lhe a fama.
— Não me fales em Deus, Rosa. Deus tem um jardim, que é onde vive. Nós
temos um inferno. Foi o que ele nos deu. Ele é um dos patrões que mais andam por aí. Um pai, se o filho passa fome, é o primeiro a privar-se de comida para que os seus filhos possam comer. Deus deveria andar a passar fome e a sofrer todas as dores. Aquela cruz não dá para nada. Olha à tua volta: um dirigente, quando quer sacrificar, fá-lo sacrificando o povo, mas que pai faria isso aos seus filhos? Qualquer pai estaria disposto a sacrificar-se a si antes de sacrificar os filhos e é isso que faz um líder e é isso que faria o verdadeiro Deus, se existisse. Se queres encontrá-Lo, procura-O no maior indigente, no maior sofrimento. Essa é a sua única hipótese de existência. Os líderes que vemos a governar os nossos países são apenas criminosos, iguais ao Deus católico. Quando se portarem como um pai a tomar conta dos seus filhos, serão verdadeiros estadistas. Deus não está no céu, está na barriga dos esfomeados. É um punho fechado, peludo, a gritar de agonia dentro do estômago.
— Mesmo assim, o professor deveria ser famoso. — A fama é o modo como as pessoas célebres se dão a conhecer. Já dei, à
fama, um protagonismo maior. Para os romanos, era um monstro cheio de olhos e bocas, com asas. Andava sempre acompanhada pelo Boato e pela Credulidade. Diz a verdade com umas bocas ao mesmo tempo que, com outras, mente. Um monstro.
— Um dia, as pessoas hão-de citá-lo e recitá-lo. — É como sempre digo: uma inteligência limitada é de uma estupidez infinita. E
é disto que a sociedade é feita, essa puta da Babilônia.
Rosa está nua na cama do professor. Ele veste-se calmamente, puxa as calças
pelas pernas acima, ajeita a camisa branca, entala-a nas calças afiambradas.
— Enquanto Heróstrato, aquele que fez arder o templo de Artemisa, perseguia a
fama a qualquer preço, eu persigo a verdade. Ele incendiou o templo de Diana porque queria ficar famoso, conhecido no mundo inteiro. Pensou que, se destruísse uma das obras mais maravilhosas da Antiguidade, o seu nome jamais seria esquecido. Esta leviandade é pérfida, mas por vezes precisamos de chegar a um lugar onde nos possam ouvir, para o bem de todos, pela vida. Isto apesar de considerar que a fama, bem, a fama já não é como dantes, mas continua a ficar bem em estátuas e a poder ser um corredor para a verdade. Se um desconhecido disser a verdade, é uma idiotice; mas se alguém famoso disser uma palermice diz a verdade. No fundo, seria capaz de mostrar um certo apreço pela verdade, apenas para exaltar os meus genes e fazer alguma coisa pela nossa espécie. Porque é disso que se trata.
Rosa sente que o professor é cheio de palavras, é fraco e não sabe fazer o
destino dobrar-se à sua passagem, como fazia Harold Estefania. Ele dava uns tiros e o caminho abria-se à sua frente. Ele nem ligava a isso, e quando lhe diziam que era um herói, ele encolhia os ombros: “Sou apenas um cobarde que fugiu para o lado errado.” Rosa percebe que o professor nunca será assim, é incapaz de dar tiros. Pinta paredes, mas o destino exige sangue. Ele não é capaz de se sacrificar pelo que ama. Mas ela, Rosa, é capaz de tudo. Um dia, pensa, incendiarei o templo de Diana ou Artemisa. A que aparecer primeiro.
— Às vezes é preciso um sacrifício como fez Nosso Senhor. Ou como se faz
cerveja. Morrer para renascer. Ser capaz de tudo, não é?
— Não, não seria capaz de tudo — admite Borja. — Eu autoproclamei-me
Heróstrato apenas porque te incendeio o ventre, Rosa. Não imaginaria deitar fogo a coisa nenhuma para fazer vingar a minha sabedoria. Se as pessoas não me reconhecem o talento, problema delas. Faria quase tudo pela ciência, mas não brincaria com o fogo.
A fraqueza que Rosa detecta no professor dá-lhe um certo asco. Faz uma
careta de desconforto, que dura apenas uns segundos. Quando Borja olha para ela, já está a sorrir. Pensa: o professor deveria matar-me, destruir o tal templo, ficar famoso, fazer das suas teorias coisas populares como os brindes da feira, como os ursos de pelúcia, como os relógios despertadores e os anéis de plástico. Viver para sempre dentro de ideias e deixar o corpo que apodrece enterrado nos cemitérios, como as cinzas da lareira depois de contadas as histórias. Diz Rosa:
— A inglesa diz que a alma é que é um corpo sério e duradouro, não é isto
(Rosa segura as ancas, os peitos). Não é isto, pois não? Coisas que apodrecem. Devia matar-me, enfiar uma faca dentro do meu corpo para fazer nascer as suas ideias. É como fazer amor, não é?
— Que loucura é essa, Rosa, que loucura é essa? Ele devia matar-me e eu servia para alguma coisa, pensa Rosa. Sente que é
preciso que o professor mate por amor, que morra por amor — que é o que as pessoas gostam de ler — para que viva pela eternidade. Mas não pode ser um mero suicídio — isso não serve o propósito — é preciso uma comédia romântica para que as pessoas olhem para as ideias. Ou queimar um templo, ou qualquer coisa que sirva para apontar para o essencial. E o professor terá um filho, mas feito de pensamentos. Como Jesus Cristo que ressuscita dos mortos.