Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 59
— Estive com Miss Whittemore, para lhe agradecer...
— A inglesa tem uma fortuna enorme, enfim, tem tudo aquilo de que uma
pessoa precisa para ser infeliz.
Rosa olha para o professor com vontade de o matar, algo que lhe surge
espontaneamente, como uma borbulha depois de comer chocolate. Sente paixão, mas também a sente misturada com a morte. E arrepia-se. Credo, diz ela para si, reprimindo o gesto da bênção, mas fazendo-o mentalmente, a mão a ir à testa e, de seguida, à ponta do esterno, ao seu ombro esquerdo, depois ao direito, terminando com um beijo no indicador e polegar.
Rosa olha para o professor, que anda delirante, e os seus anos todos parecem
ser os anos todos de uma criança e não de um velho. Ele abraça Rosa sempre que pode e que ninguém os vê. Beija-a com dedicação, passa-lhe as mãos pelo corpo com a urgência de um adolescente. Passa horas enlevado a olhá-la.
— Que foi? — pergunta ela.
— Nada — responde ele, com um sorriso cercado de barbas. O professor encosta a cabeça ao peito dela e molha-o com duas ou três
lágrimas sentidas. Ela, apesar de a maior parte das vezes não o suportar, comove-se com aquela cabeça de cabelos grisalhos e dá-lhe um beijo na testa como se fosse mãe dele. O tempo, nas relações, não anda necessariamente de trás para a frente, do passado para o futuro. É fácil verificar que uma mulher nova pode ser muito mais velha do que um velho, e que um homem de idade impressionante pode ser uma criança. Nas relações, o tempo comporta-se de maneira diferente. O único relógio que mede o passar destes tempos são os sentimentos.
O professor lembra-se de quando se casou, de como tudo se alterou, de como a
sua casa de solteiro se transformou num lar. Viu, de um dia para o outro, uma santa em cima da televisão e um canário em cima da máquina de lavar roupa. A varanda tornou-se marquise.
— Um empreiteiro constrói uma casa, Rosa, mas só uma mulher constrói um
lar — diz o professor, recordando o brilho metálico do alumínio da marquise.