Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 28 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 27

O professor pesa-se numa balança pública: é o peso de um teorema, não é o peso da carne, dos músculos e dos ossos. Oitenta e um quilos de pura ciência, pensa. Sai da farmácia contente com os seus centímetros todos, os sapatos a ranger sob o peso da sua figura matemática. Para uns momentos para alisar o cabelo no reflexo da montra de um café, sorri para si mesmo, um sorriso que a empregada do café julga ser-lhe dirigido. Empurra a porta de alumínio castanho, entra no café, cumprimenta os dois homens que estão a beber cerveja ao balcão e pergunta se não há mais bolos. A empregada responde-lhe que há os que estão à vista e o professor manda embrulhá-los.

— Todos? — pergunta ela.

— Sim.

O barulho do motor do carro do amigo do professor chega ao largo da igreja.

Rodrigues Filho sai da carrinha azul-clara, com o seu porte de elefante africano, e abraça o amigo, deixando o motor a trabalhar. Rodrigues Filho tem as cores saudáveis de quem se alimenta de gorduras animais, entre outros vegetais. Tem, por vezes, um cigarro na mão, calças de pregas e, por vezes, um cigarro na boca.

— Vamos lá apanhar o javali — diz Rodrigues Filho. O professor Borja faz que sim com a cabeça, dizendo “cabrão do porco”, e

senta-se na carrinha. Pousa o cotovelo na janela aberta e o embrulho de bolos no colo.

Quando chegam ao local onde o professor teve o acidente, já lá não está o

porco.

— Já o levaram — diz Rodrigues Filho.

— Melhor assim, dá menos trabalho.

O professor pergunta onde é que ele tem o cabo e Rodrigues Filho aponta com o

queixo para a caixa da carrinha. Sobe lá para cima com agilidade e desce com uma corrente na mão. Deita-se no chão, junto à parte da frente do carro danificado e tenta encontrar um ponto para prender a corrente. O professor fica a ver, de mãos nos bolsos.

— Então e as tuas teorias todas? Já são famosas? — pergunta Rodrigues Filho

com metade do corpo debaixo do carro.

— Se calhar a fama... A fama é a maneira que nós temos de reconhecer na rua

pessoas célebres. Não importa. Só o saber importa e isso não tem nada a ver com a fama.

— Isso, isso, a fama não importa para nada. Rodrigues Filho sai de debaixo do carro, sacode as calças e as mãos, e prende a

corrente à parte de trás da carrinha. Sobe para a cabine e anda uns metros com a carrinha, para testar.

— Para onde é que levamos o carro?

— Para o mecânico da vila. Mas eu não vou, levas tu o carro sozinho. — Então? Ficas aqui no meio do nada?

— Fico. Tenho de ir àquele monte.

— Fazer o quê?

— Não sei bem, para ser sincero.

Rodrigues Filho arranca enquanto o professor caminha para o monte. Tem

dificuldade em desviar-se da natureza, há sempre plantas bicudas e o seu andar já não tem a solidez da juventude. Mas lá vai progredindo até chegar à porta de madeira pintada de azul. Antes de bater, tira umas bolinhas de picos que ficaram agarradas às calças e tenta desfazer-se da lama da sola dos sapatos esfregando-os numa pedra. Rosa abre a porta sem perguntar nada.

— Alguém levou o javali — diz o professor. — Não fomos nós. Se vem à procura...

— Não, nada disso. Vinha agradecer.

— Agradecer o quê?

— Quem é? — pergunta Antónia lá de dentro. — É o velho que atropelou o javali — diz Rosa virando-se para dentro. — Quem é? — pergunta a avó outra vez.

— É O DO JAVALI! — grita Rosa.

— Trouxe uns bolos como agradecimento — diz o professor. — Agradecimento de quê?

— O que é que ele quer? — pergunta a avó. — É melhor entrar — diz Rosa.

O professor entra e entrega os bolos a Antónia. Rosa ajuda a avó a abrir o

embrulho.

— O que é?

— SÃO BOLOS — grita a neta.

O professor toma a liberdade de se sentar. Antónia vai comendo os bolos, uns

atrás dos outros. Ficam os três sem dizer nada, só com o barulho de Antónia a comer e da gineta, que vai lambendo as migalhas que caem no chão.