Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 39 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 38

Ari gosta de jogar à bola, mas usa sapatos demasiado grandes para disfarçar os pés minúsculos. Outro pastor, chamado Pula, é capaz de chutar a bola com tanta força e precisão que se entretém a matar galinhas e gatos com os seus remates fatais. Ari não tem uma destreza especial, limita-se a chutar para a frente e a ter esperança. Olha para os seus remates como os pais olham para os filhos. Sabe que têm um destino próprio, uma vontade própria, mas não consegue evitar esperar o melhor, esperar um golo soberbo e indefensável, apesar de o remate ter sido um movimento defeituoso. Ari, de cada vez que chuta a bola, torce a boca à espera de milagres. Pula, pelo contrário, sabe sempre para onde vai a bola, por isso nunca pensa no futuro, não pensa em milagres, para ele, tudo é uma certeza.

Ari diz-lhe que precisa de ir embora.

— Vais ter com a Rosa?

— Não tens nada a ver com isso.

— Vais ter de envelhecer para ela gostar de ti. Ouvem-se cães a ladrar. Ari passa pelo monte de um vizinho, um mecânico de

automóveis que se reformou por causa de um defeito na mão esquerda. O homem cumprimenta o pastor enquanto dá de comer aos seus dois cães cegos. Ari acena e continua o seu caminho, vai andando hesitante, não tem a certeza de estar a fazer bem. Da última vez que esteve com Rosa, Ari saiu zangado, com ciúmes do professor Borja. Agora só quer que tudo volte a ser como antes. Não sabe se há-de pedir desculpa ou perdoar-lhe. Fica na dúvida sobre quem terá razão. Se fosse como o seu amigo Pula ou como o pai de Rosa, saberia sempre o que fazer, mas Ari é indeciso, inseguro, não se parece nada com os homens que conhece. Lembra-se da última vez que esteve com o pai de Rosa, meses antes do acidente com o trator. João Lucas Marcos Mateus, depois de sair da casa de banho, chamou Ari para lhe mostrar o tamanho das fezes que acabara de fazer. São grandes, não são? Ari disse que sim. São de homem, disse João Lucas Marcos Mateus.

Rosa demora a responder quando ouve bater à porta. Já sabe que é Ari, pois

reconhece os passos hesitantes. O pastor traz a lanterna ligada apesar de ser dia. Rosa percebe que ele está baralhado e ri-se. Ari murmura qualquer coisa e Rosa pergunta-lhe se ele veio pedir desculpa. O pastor não sabe o que dizer, mas ela puxa-o para si e beija-o.