Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 73
Um dia, Rosa está lá na terra, a cavar a horta, a semear e a plantar, no outro, dirige-se para Lisboa. Quando pousa a mala de couro, na estação rodoviária da capital, ganha de imediato rugas na testa. É o que faz o ar das cidades. Apesar disso, a sua compleição não deixa de cheirar a terra e a sua voz dá a mesma sombra que os sobreiros ao fim da tarde.
No primeiro ano em Lisboa, sente muitas saudades da terra e procura o seu
cheiro em todos os lugares a que vai. Leva o azeite ao nariz para sentir o pastor, mas não lhe cheira a sexo, porque a refinação industrial arruina as memórias. Tenta encontrar expressões e sotaques. Ouve a senhora do quiosque dos jornais dizer que foi a bruxaria que o matou.
— Quem? — pergunta Rosa.
A mulher vira-se para ela, apoia a cabeça na mão com o cotovelo pousado no
balcão e responde:
— O meu cunhado, que gastava o dinheiro todo numa bruxa da Amadora. E foi
ela que lhe estragou a vida.
Rosa aquiesce, enquanto tenta perceber se alguma palavra é dita como as
palavras das suas memórias, mas é tudo pronunciado de forma urbana, não são palavras, são cimento e carros e o sabor a cloro da água da torneira. Já não ouve o que a senhora do quiosque diz e olha para o infinito. A senhora do quiosque também desvia o olhar na mesma direção, curiosa com o que se poderia passar ao fundo, mas os seus olhos não veem tão longe quanto os olhos de campo de Rosa, não veem o horizonte com uma azinheira recortada, não chegam ao infinito.
— Estás a pensar no quê? — pergunta a senhora. Rosa gagueja e diz que não pensa em nada e despedem-se. Rosa começa a tornar-se muito parecida com a sua mãe, com as mãos frias
como a porcelana das santas. Vai-se esquecendo de tudo o que importa, como a Mãe de Deus, que esqueceu que veio do céu. Rosa continua a viver mais ou menos morta. Um dia, um magala pede-lhe qualquer coisa e ela dá-lhe. Aos poucos, vai dando tudo, extremando a sua generosidade, não só com magalas, mas com um leque muito alargado da população viril, algumas mulheres e até alguns animais. E dar, dar constantemente — São Francisco que nos perdoe — dá-lhe cabo da pele, dos lábios, do rabo redondo, do sexo peludo. O corpo dela começa a entristecer profundamente. Os anos passam e ela vai ganhando anos, envelhecendo até aos trinta, até aos quarenta. As pernas engordam e o rabo parece que se debruça numa varanda — e receia cair no chão de tão curioso pelo que se passa lá em baixo. As mamas fazem o mesmo. Começam a sua peregrinação para a barriga. Uma para cada lado, coladas ao corpo com dois mamilos que parecem pratos de sobremesa atirados contra o peito. Vive só por viver, dia após dia, um a seguir ao outro, até uma espécie de velhice — feita mais de cansaço do que de anos — a encontrar na esquina onde se prostitui. Pensa muitas vezes nos árabes — que dizem que quem tem filhos não morre — e cita livros de cowboys, além de um ou outro verso de Diógenes de Oenoanda ou um pensamento de Nicolau de Cusa, ou alguma teoria aparentemente científica, dessas que tantas vezes ouviu enquanto esfregava o seu corpo contra o do professor. Os clientes, por vezes, ouvem-na dizer estas coisas enquanto se deitam em cima dela.