Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 4 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 3

Rosa lembra-se muito bem da sua infância. Lembra-se de uma estátua da Virgem, como aquela que está junto à estrada à saída da aldeia, só que mais pequena. A mãe era uma mulher bonita que gostava de whisky e de ler. O pai era um homem baixo e franzino, mas surpreendentemente possante, católico, seco e capaz de arrancar árvores com uma mão. Tinha um nariz que era uma foice, lábios que pareciam duas cicatrizes, e gostava de adormecer de barriga para cima como adormecem os mortos. Bebia demasiado e depois saía para a rua a gritar com toda a gente, e ninguém se atrevia a pará-lo. Se alguém lhe fazia frente, pegava num copo de vinho com a mão esquerda e lutava usando a direita, sem nunca entornar uma gota. Depois punha o pé em cima do inconsciente que se atrevera a desafiá-lo e bebia o copo de um trago, limpando de seguida a boca ao braço e cuspindo para o chão. Chamava-se João Lucas Marcos Mateus, pois a sua mãe, a avó de Rosa, achara que seriam nomes capazes de o proteger pelas veias da vida: um evangelista à frente, outro atrás, outro à esquerda e outro à direita. Por cima ficava Deus e por baixo o nome de família, junto à terra, que é onde estão todos os antepassados. Assim, teria um nome que o protegeria para sempre, contra todas as direções do espaço, apenas aberto para o céu, onde Deus seria um guarda-chuva.

A mãe de Rosa era arqueóloga. Quando — mal terminou o curso — começou a

trabalhar numa escavação no Baixo Alentejo, apaixonou-se. Isabel nunca gostara de rapazes polidos, de portes urbanos. Preferia homens feitos de lama e de trabalho, com as unhas sujas de bebedeiras de aguardente caseira, com hálito a metanol. Homens que tivessem mãos mas que a apalpassem como se tivessem cascos, e que, quando se deitassem em cima dela, respirassem o ar do campo, das pedras, das tempestades e fodessem como uma vara de porcos a passar por cima de um canteiro de lírios.

Quando viu os braços finos mas tensos de João Lucas Marcos Mateus, Isabel

suspirou, e isso não passou despercebido. Nessa mesma noite, o pai de Rosa deitava-se em cima de Isabel, com o seu cheiro a bode, a alecrim e a Deus.

Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um

passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza, mas a História, a verdade. Foi o que ela lhe disse. Era muito nova e preferia umas mãos arranhadas e grossas às mãos intelectuais dos amigos e dos colegas. João Lucas Marcos Mateus tinha as mãos cheias de alfaces plantadas e de açoites nos cães. Os nós dos seus dedos pareciam os cotovelos de Isabel e o cheiro que trazia era como o de Deus. Deus cheira a touro, a terra e ao ventre das coisas. Os dedos dos colegas de Isabel, dos seus amigos, dos seus ex-namorados, eram como os seus cabelos molhados, acabados de lavar. Tocavam-na, mas eram feitos de palavras perfumadas. Preferiu João Lucas Marcos Mateus e expulsou os literatos da sua vida. Alguns eram, certamente, geniais. Sabiam versos gregos e escavavam coisas. Mas as suas mãos eram como um mau penteado.

João Lucas Marcos Mateus não sabia dizer nada, mas sabia quando plantar e

quando colher, e isso refletia-se no corpo dela. Tinha um profundo conhecimento das suas coxas, das suas virilhas, das suas mamas. Ele tocava-lhe e fazia florescer os seus suspiros.

Isabel nunca cometeu o erro de tentar domesticá-lo, mesmo quando a paixão

começou a desvanecer e o charme da animalidade passou a ser o defeito da animalidade. Os anos que se seguiram àquele casamento improvável foram transformando tudo aquilo que de início era arrebatador em motivo de asco. A rotina foi-se instalando. O sexo tornou-se uma coisa prazenteira quando não o tinha. Isabel, que deixara de trabalhar — vivia à custa do marido e das rendas de duas casas que recebera de herança —, começou a beber. Deu à luz uma filha a quem chamaram Rosa, por ser o nome da avó paterna de João Lucas Marcos Mateus. O pai de Rosa era dócil e gentil com a menina, contrariando toda a sua natureza de cavalo selvagem, enquanto a mãe era fria como o Inverno — Rosa lembra-se bem das mãos da sua mãe, que pareciam de porcelana, como as das santas.

Um dia, João Lucas Marcos Mateus deixou de cheirar a Deus. Chegou a casa

com desodorizantes e coisas afins e disse a Isabel que nunca mais cheiraria mal. Podia ser um labrego, mas não seria um labrego malcheiroso. Não queria que a filha se envergonhasse dele, queria ser um novo homem, e isso fez com que Isabel sentisse um repúdio ainda maior. Já não suportava João Lucas Marcos Mateus como era, selvagem, mas a nova versão revelava-se ainda mais deprimente. Sem o fulgor de outrora, parecia um cavalo cansado com os sovacos cheios de desodorizante barato.

Enquanto João Lucas Marcos Mateus trabalhava no campo, Isabel bebia e recebia

cada vez mais homens em casa. Sempre que o marido não estava, havia máquinas para reparar, correio enganado, pão para entregar. Rosa via homens que não conhecia a entrar e a sair, ouvia risos e suspiros a rastejarem por baixo da porta do quarto dos seus pais. Por vezes ficava deitada no chão, parecia um tapete, com a cabeça encostada à madeira da porta. Gostava que o riso que passava por ali, que os suspiros e gemidos, a encontrassem a ela. Era por isso que deitava a cabeça no chão, junto à porta, para sentir, vindo da sua mãe, algo que não fosse frio como mãos de porcelana.

Um dia, a mãe de Rosa decidiu sair dali. Já não aguentava mais, parecia que

tinha a cabeça a rastejar pela sua vida, esfomeada. Aquilo não era para ela. O pai havia tido razão quando se opusera à sua união com João Lucas. Agora, com uma filha agarrada aos joelhos do seu destino, era difícil mudar. Mas ela mudou.

Aconteceu numa manhã de ressaca, mas luminosa, com os pássaros a chilrear

pelo meio da dor de cabeça de Isabel. Rosa estava sentada no sofá a brincar quando a mãe abraçou um homem qualquer que tinha acabado de entrar. Rosa saltou do sofá e agarrou as pernas da mãe com ciúmes. Riram-se todos (menos Rosa). O homem qualquer sentou-se a fumar e a beber, e passados minutos Isabel apareceu na sala com uma mala. Saíram os dois, e Rosa correu atrás deles até onde pôde, até à porta da rua, onde ficou encostada a bater com os punhos, a gritar, a chorar.

Quando se acalmou, foi para o quarto. Tirou o terço que a avó materna lhe dera

e pôs-se a rezar junto à cama. Rezou com tanta força, com os olhos tão fechados que até doía, que a mãe voltou a aparecer. Rosa ouviu a fechadura da porta e foi ver o que era. Quando viu aquela figura, percebeu de imediato: aquela mulher não era a sua mãe. Era uma substituta, era a Virgem, que decidira atender às suas preces e ocupar o lugar da sua mãe. Era mais doce, mais sensível, era outra pessoa, apesar de visualmente idêntica. Depois das suas preces, o milagre havia acontecido: a Virgem, para não ir contra o livre-arbítrio, tão fundamental para a teologia da Igreja, decidira que, na impossibilidade de mudar o caráter de uma pessoa, apenas restaria a solução de a substituir, mas com as características que essa mesma pessoa deveria ter.