Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 51 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 52

O Bispo Ireneu achava que Cristo teria morrido velho, com mais do dobro da idade que a ortodoxia normalmente lhe atribui no momento da crucifixão. O credo, como todo o catecúmeno ou fiel sabe, diz que Ele era verdadeiro homem e, ao mesmo tempo, verdadeiro Deus. Segundo Ireneu, para Cristo ser plenamente humano, teria de ter experimentado a velhice. O santo Bispo estava enganado. Disse-o a Igreja e disse-o o século, ou outro Padre qualquer. Mas por outros motivos. Não repugna (e até apraz) que Cristo tenha morrido com rugas, calvo, reformado e encurvado. Por outro lado, ao contrário do que defendia o opaco Ireneu, não é a bruta parte humana que deve preocupar, é a divina (mais delicada e que precisa de mais cuidados). É evidente que ninguém é verdadeiramente Deus se não experimentar passar umas tardes a jogar dominó e lerpa nos jardins e nas praças, enquanto desenvolve a bizarra capacidade de apreciar rosé com gasosa.

Mas não é aí que o professor Borja desfruta das suas tardes. Não gosta de

cartas e prefere os livros. Seja como for, sente que tem a idade que Cristo nunca teve e isso dá-lhe uma experiência que Deus não soube viver enquanto homem. A sua idade é uma língua de fora contra Deus: eu vivi mais do que tu, que até és eterno e infinito como os diabos.

Rosa vai ter com ele à biblioteca, que é o lugar mais discreto do mundo, já que

ninguém lá vai e está sempre vazia. Saem os dois e caminham para casa dele. O professor abre a porta da rua, do prédio, e sente que existe alguma coisa dentro de si a borbulhar, uma espécie de fermentação, até lhe vem o gás à boca. É uma ereção que se debate contra a flanela das calças. Agarra Rosa, não quer perder a oportunidade de uma cena tão viril, e passa as mãos por todos os lados proibidos de uma mulher. Rosa está deliciada, nem Ari com o seu corpo de bode e os seus movimentos de manada se assemelha à urgência do professor.

Lá fora, o pastor Ari vê-os entrar no prédio. É um edifício branco com portadas

azuis e janelas da mesma cor. Por baixo há uma bomba de gasolina, aberta vinte e quatro horas, e um café muito menos aberto. Ari tem seguido os passos de Rosa. Quer saber se está a ser traído. Vai, com os seus pés pequenos, perseguindo o seu destino, mas acima de tudo a sua infelicidade.

O pastor entra pelo apartamento de Borja. Traz a cara da raiva e do desespero,

e vice-versa, olhos marejados, lábios a tremer, os punhos fechados. Borja, na ânsia de se deitar em cima de Rosa, nem fechou a porta da rua. Agora, à sua frente, está um homem com cheiro a campo, com raiva em todos os lugares do corpo e com a alma num punho fechado.

— Quem é você? — pergunta o professor, com as calças nos tornozelos. — ...

— Não diz nada?

— É um amigo — esclarece Rosa, com os collants nos tornozelos e as mãos a

cobrir as mamas. — Não sejas parvo, Ari.

— ...

— E não diz nada? — insiste Borja.

— ...

Ari cai de joelhos e balbucia algumas palavras: — Comprei-te um anel...

Ari traz uma caixinha na mão, treme demasiado, a caixa cai no chão e ele baixa-se para a apanhar. Abre-a, mostra o anel lá dentro, enquanto os seus joelhos se enraízam no chão de tacos.

— É como esse que o velho te deu.

Rosa grita para ele sair dali.

— Olha que me mato — diz Ari. — Não me faças isto. E deixa cair a cabeça contra o peito.

O professor aproxima-se com o seu odor a sótão e Ari ergue-se de repente e

dá-lhe um pontapé na barriga. O professor cai agarrado ao ventre enquanto o pastor ensaia mais uns pontapés nas costelas do velho. As barbas grisalhas da vítima tremem do choro entrecortado pelos gemidos de dor. Ari agarra-o quando o outro se fecha como um ovo cozido, como um feto velho. Leva-o até ao patamar das escadas e empurra-o. O professor rebola sem atrito até ao patamar seguinte. Não é um lance muito grande, mas chega para fazer o sangue brotar-lhe dos lábios, juntamente com o nome de Rosa.

— Filho da puta! — grita Ari quando o empurra, cabelos em desalinho. — Ela

podia ser tua neta.