Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 61 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 62

O dia acorda e Antónia também. Olha em volta e comenta que parece o Alentejo. O professor explica:

— É mediterrânico, é tudo parecido, são sobreiros, péssima economia e oliveiras

e queijos de ovelha e cabra. Deus sabia o que era bom e fez-se encarnar num lugar que tivesse desrespeito pelo trabalho e pela escravidão, pelas finanças, essas coisas. Deus faz tudo pelo melhor e jamais pensaria em ser alemão.

— O quê?

— É PARECIDO.

— É igual.

— Praticamente.

— O quê?

Rosa senta-se ao lado da avó e encosta a cabeça, passando-lhe o braço

esquerdo pelos ombros. A avó vira-se para ela, parecendo desorientada, mas acaba por sorrir. Encosta a cabeça ao ombro da neta e adormece de novo. Sonha com corujas e com felinos. E os dois vêm comer nos seus sonhos, porque é aí que a vida se alimenta. Caçam, cada um à sua maneira, uns de noite e outros de dia, preenchendo todos os sonhos, os a dormir e os acordados. Antónia voa muitas vezes, mas não faz como os pássaros, é como se subisse escadas, pondo os pés nos degraus do ar. É um processo mais lento, mas mantém a sua verticalidade, que é um assunto muito humano. Muitas vezes leva migalhas para a cama para dar de comer aos pardais dos seus sonhos, os únicos que ela tolera. E Rosa aparece por vezes, como uma joaninha ou como uma vara de ferro ou como um padre distante ou uma borboleta morta. Antónia acorda, desorientada, olha para a neta e sente a vida toda misturada, sonho e realidades.

O professor senta-se ao volante e liga a ignição. — Alugamos este carro, igualzinho ao outro para a senhora não estranhar — diz

o professor a Antónia.

Ela não ouve e Rosa grita exatamente a mesma coisa que Borja acaba de dizer

ao ouvido da avó.

— Ah! — diz ela por fim.

O carro estremece, como se estivesse emocionado, e começa a viagem para a

Terra Santa. O professor está entusiasmado ou assim aparenta: aponta para a esquerda e grita Jericó (JERICÓ), aponta para a direita e grita Belém (BELÉM). Quando passam por uma pequena ponte sobre um riacho seco, para para explicar que aquilo é o rio Jordão, seco pelos pecados dos homens, mas que aquela ponte assinala o local onde São João Batista batizou Cristo. É um local sagrado. Repete tudo aos gritos até conseguir fazer-se entender. Antónia quer atirar uma moeda com um desejo e o professor gaba-lhe a atitude.

Borja está entusiasmado e nem sente a mentira. Na verdade, acha que todas as

geografias se sobrepõem. O sagrado está em todo o lado. Não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo valor que lhe damos. Se uma aldeia do Alentejo pode ser Jerusalém, é porque é Jerusalém.

Rosa dá água à avó e a viagem prossegue. Diz Rosa: — Já chegamos à Terra Santa. A cidade fica logo ali. — O quê?

— JÁ CHEGAMOS.

— Parece o Alentejo.