Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 10
Dentro de casa, a gineta domesticada dorme junto à lareira. Rosa anda de um lado para o outro, a tremer, e a gineta levanta-se e roça-se nas pernas dela, quase que a faz tropeçar. Rosa dá-lhe um pontapé e a gata afasta-se para debaixo da cadeira onde está Antónia.
Rosa ouve o barulho de um motor. São os bombeiros, e ela corre para a entrada
a gesticular, dizendo:
— Depressa, que a minha avó está-me aqui a morrer. — Ela já não tem idade para morrer — diz Branco ao sair da ambulância. Faia
sai pelo outro lado, abre as portas traseiras e tira a maca.
Os bombeiros deveriam andar a combater o fogo, o elemento de Heráclito. Em
vez disso, lutam contra o tempo. Uma luta quimérica. Para combater o fogo usam o seu grande inimigo, a água, mas para combater o tempo só têm uma maca, um medidor de tensão e uma garrafa de oxigênio. E, claro, os velhos continuam a morrer. Os bombeiros deveriam ter mangueiras a deitar juventude, deveriam andar a apagar a velhice.
Pegam na avó de Rosa e pousam-na na maca. Faia deixa-a cair e o outro
repreende-o.
— As velhas caem muito — diz Faia.
— Caem mas é o caralho. Tens de agarrar nela como deve ser. — É como te digo, são como a chuva, só sabem cair. O bombeiro Branco mede-lhe a tensão. Faz uns estalidos com a língua, parece
preocupado, e solta uns números que não dizem nada a Rosa.
— É grave? — pergunta ela, enquanto anda à volta dos bombeiros e tenta ajudar
de alguma maneira, ao mesmo tempo que dá um beijo na testa da avó e grita por Deus: valha-me Deus, valha-me Deus.
Levam Antónia para a ambulância e Rosa acompanha-os. O bombeiro Branco vai
a conduzir e o bombeiro Faia vai com as mulheres na parte de trás. O condutor assobia uma música popular enquanto Faia prepara a garrafa de oxigênio.
— Não há-de ser nada — diz, para descansar Rosa. E pega num bloco para
preencher um formulário.