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Capítulo 28
As pegas levantam voo, brancas e pretas, à frente dos olhos de Rosa. Ela não gosta delas, porque a avó diz que a morte tem essa forma e que todos temos um pássaro daqueles a vigiar-nos, que é a nossa morte. Fazem ninho nos telhados das nossas casas e vivem a observar-nos, com paciência, até ao dia em que nos arrancam a alma como fazem às minhocas da terra. Rosa acha que aqueles pássaros são nojentos e nunca toca em nenhum.
Cospe para o chão e continua a andar pelo monte. Do outro lado vê-se a
barragem, que está cheia de água e de corvos. O campo está coberto de estevas e rosmaninho e erva-ursa, e Rosa evita uns e pisa outros. O céu está meio inclinado sobre a sua cabeça e está azul-claro com nuvens brancas. Na berma da estrada há sempre animais mortos e junto à estrada há sempre vedações. A terra pertence sempre a alguém, apesar de, na verdade, suceder exatamente o contrário: as pessoas é que pertencem à terra. Rosa não repara nas vedações de arame farpado com azinheiras do outro lado e porcos pretos a comer, porque sempre viu a paisagem assim. O arame farpado é como o funcho e as beldroegas que crescem em todo o lado, é como o ar, é como o céu. Deus fez muito bem em esconder-se, ou ninguém jamais pensaria nele. Seria uma vedação de arame farpado, sempre a ladear os caminhos das pessoas, mas sem que ninguém olhasse para Ele, ou pensasse verdadeiramente n’Ele. Ao esconder-se, criou os padres, a teologia, os brahmins e a metafísica.
O pastor está deitado na terra. Olha para as mãos cheias de feridas. O cão
está deitado ao seu lado, a lamber uma pata. Ari tem cabelos aloirados e encaracolados e pés pequenos. Usa botas demasiado grandes para os seus pés para que ninguém repare que tem pés de cabra, pés demasiado pequenos, demasiado minúsculos. O cão nota a aproximação de Rosa, levanta-se e ladra. O pastor ergue-se e encosta-se a um sobreiro. Tira um cigarro e acende-o. Rosa aproxima-se. Traz um saco com arroz e um sorriso. Parece feliz, e o pastor sorri para dentro. Não o faz para fora para não perder o charme. Encosta um dos pés à árvore e dá três passas de seguida no cigarro, semicerrando os olhos enquanto olha para Rosa. Com o indicador dá um piparote no cigarro deitando-o fora. Rosa chega ao pé dele ofegante e bem-disposta, pousa o saco e atira-se para os seus braços. Ele estremece, mas faz-se viril e nem sequer sorri, apenas se penteia. Ela afasta-se uns centímetros, ainda alegre, e ele saca do canivete, abre-o com calma, limpa uma unha, baixa-se, pega num queijo e corta uma fatia. Leva-a à boca e de seguida corta mais uma, que leva à boca de Rosa. Ela tenta desviar a cara, mas ele insiste, a rapariga dá uns gritinhos, mas acaba por comer o queijo. Ele limpa a boca à manga da camisa aos quadrados e agarra-a pela cintura, derruba-a, cai em cima dela como um pôr do sol, levanta-lhe a saia e tenta tirar-lhe as cuecas. Não é fácil e acaba por sentir algum embaraço com a sua falta de jeito, especialmente porque Rosa se queixa de que ele a magoa, que é demasiado bruto.
O sol cai a pique, pesado como lenha a arder, e eles ficam deitados, meio
despidos em cima das alabaças e das margaridas e dos trevos. As pegas dão voltas lá em cima, por cima deles, e Rosa não gosta disso, chega a exclamar: Malditos pássaros que nos matam.
O pastor não percebe aquela antipatia. Gosta da natureza e da selvajaria que o
cerca. Não se incomoda com os cheiros, com a sujidade, porque é isso que é a natureza, um lugar sem higiene nenhuma, cheia de bichos e de terra e de coisas desorganizadas. É o oposto dos jardins e das cidades e das hortas e do cimento. A natureza é o maior inimigo do homem civilizado. Mas o amor pode muitas coisas e, desde que se deita com Rosa, Ari passou a tomar banho quase todos os dias, ou pelo menos uma vez por semana.
— A minha avó está muito doente.
— Está velha. Não há nada de mal nisso.
— Tenho medo de ficar sozinha.
— Eu estou aqui.
— Não é a mesma coisa.
— Eu não morro.
— Não morres?
— Não morro. Que é para não te deixar sozinha. — Toda a gente morre, Ari.
— Eu não.