Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 51
— O povo — diz Fartaria, enquanto limpa os cardos no adro da igreja — é como as solas dos sapatos, serve para pisar, serve para que não nos magoemos ao tocar no pó.
Ari passa por ele e sorri com o seu cheiro de ovelha. Rosa surge à sua frente, traz um vestido escuro e demasiado quente. Tem
flores, mas estão mortas de cansaço num tecido que absorve muito calor. Rosa rói as unhas maquinalmente, minuciosamente, observando os dedos para detectar assimetrias. E quando as encontra, corrige-as compulsivamente, como um coelho. Fartaria cumprimenta-a e ela finge que não ouve, pois tem uma unha desequilibrada e não quer que ele repare. Vira-se de costas a roer, como um coelho, e Fartaria encolhe os ombros. Ari está mesmo à sua frente, a olhar para as mãos de Rosa, para a mão cheia de um anel. Ari arregala os olhos, não pelo inesperado encontro, mas pelo dedo anelar de Rosa.
Ela percebe que Ari repara no anel que Borja lhe ofereceu e não tenta disfarçar.
Acaba de roer a unha com as sobrancelhas franzidas e deixa sair um suspiro.
— O que é isso? — pergunta Ari, e ela põe as mãos atrás das costas e encolhe
os ombros.
— Não é nada — diz ela.
— Quem é que te deu isso?
— Foi o professor.
— O velho?
— Ele não é velho.
— É velho.
— O que é que tu sabes sobre idades? Há pessoas velhas que são novas e há
pessoas novas que são velhas.
— É um velho nojento.