Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 60
A cadeira de rodas de Venâncio está quase nova. Venâncio morreu dois dias depois de a receber. Agora, quem se senta nela é Antónia, com um lenço na cabeça e uma careta. Não gosta de ser transportada numa cadeira de rodas porque parece uma inválida, apesar de não se importar de ser transportada até à igreja num carrinho de mão. Vai refilando com o caminho enlameado que vai da porta do monte até à estrada, que fica a cerca de trezentos metros. Há um carro à espera dela para a levar ao aeroporto. O professor empurra a cadeira e Rosa vai ao lado da avó, a tentar acalmá-la, passando de vez em quando as mãos pelos ombros dela, gestos que a deixam ainda mais nervosa e contrariada. Alípio sai do carro para ajudar a sentar Antónia no banco. A tarefa não é fácil e Alípio comenta que a velhice pesa como o caraças, que os novos são mais levezinhos. O professor manda-o calar, que só diz asneiras. Rosa pega nas pernas da avó, brancas e azuladas das veias (parecem rios vistos do cimo de uma montanha, pensa Rosa) enquanto Alípio a segura pelos sovacos. O professor já está sentado no lugar da frente, ao lado do condutor, a fumar um cigarro. Vai dando conselhos, dizendo como se deve enfiar uma velha num carro. O percurso até ao Avião demora vinte e sete minutos, mas o professor obriga Alípio a fazer um desvio para o prolongar um pouco mais. Fica mais realista assim, diz ele.
Chegam por fim, depois de algumas discussões, e o carro é estacionado junto a
um cedro. Antónia acha estranho que haja ali um avião no meio do campo, aquilo não lhe parece um aeroporto. O professor explica, a gritar para conseguir fazer-se ouvir, que foi obra do governo, que estava preocupado com o isolamento, com a desertificação, e assim decidiu construir aquele aeroporto, ainda que modesto. Alípio ri-se e o professor dá-lhe uma cotovelada nas costelas. Miss Stela desce do avião a correr e chega junto ao carro no preciso momento em que Rosa e Alípio pousam Antónia na cadeira de rodas. Miss Stela usa um vestido azul, camisa branca e umas asas na lapela do casaco. Tem um chapéu da mesma cor da farda e parece realmente uma hospedeira. Faz questão de ser ela a empurrar a cadeira até ao avião. Mais uma vez, Rosa tira a avó da cadeira segurando-lhe nas pernas enquanto Alípio a alça pelos braços. O homem sobe as escadas de costas e, apesar de ser um esforço relativamente grande, parece a ambos bastante mais fácil do que o que despenderam para a meter e tirar do carro. Sentam-na numa cadeira e Antónia mostra-se impressionada com o avião, diz que até parece um restaurante.
— São as comodidades das modernas aeronaves — explica Miss Stela. — O quê? — pergunta Antónia. E Rosa grita: — SÃO AS COMODIDADES DAS MODERNAS AERONAVES. O professor informa Miss Stela de que terá de gritar para se fazer ouvir. — VOU SERVIR-LHE UM CHÁ — grita a stripper. O professor acompanha-a enquanto ouve Antónia perguntar a Rosa se ainda
falta muito para partir e se não vai mais ninguém no voo. Miss Stela e o professor entram na cozinha e ela serve dois whiskys. Bebem-nos de um trago e fazem umas caretas. Miss Stela tira uma cafeteira, põe-na ao lume e enquanto a água aquece tira uma saqueta de chá e um pacote de açúcar de dentro de um cesto de verga.
— E os comprimidos? — pergunta ela.
— Estão aqui — diz o professor, tirando um saquinho de plástico de dentro do
bolso do casaco.
Rosa está sentada ao lado da avó, que está muito nervosa. — Quantas horas são de viagem?
— São muitas — responde Rosa, pegando-lhe na mão. — Ah, já aí vem o chá. Antónia usa as mãos magras e ossudas e leva a chávena à boca, sopra, e
beberica. Diz que não gosta do chá, que chá é aquele, pergunta. Mas vai bebendo e quando acaba adormece. De cansaço, ainda antes de os comprimidos fazerem efeito.