Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 36 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 35

A tarde boceja pelas ruas quando o professor entra na casa de Miss Whittemore. O salão, cheio de dourados, tem uma pequena mesa no meio, rodeada de sofás, e uma lareira. As paredes estão decoradas com motivos florais e há um espelho gigante e pinturas de peixes de rio penduradas nas paredes. Miss Whittemore está sentada num sofá individual com as pernas cruzadas à oriental — um sari lilás cobre-lhe o corpo ossudo — enquanto fuma cachimbo. O professor entra acompanhado pela empregada Ana Maria que, depois de anunciar a visita, se afasta de imediato.

— Temos as nossas divergências, acima de tudo budistas, mas este caso é

especial.

— Fale, professor.

— A Rosa, a rapariga que trabalhava em casa do Santos & Santos, tem uma avó

que quase não anda, quase não vê, quase não ouve, quase não fala...

— Parece aqueles macacos orientais.

— É uma senhora religiosa e de muita idade cujo maior desejo é visitar a Terra

Santa antes de morrer.

— Quer que eu pague a viagem à senhora? — Nada disso. Ela não tem condições para viajar. — Então?

— Vamos transformar esta aldeia em Jerusalém. — Está louco?

— Ouça, a velha não faz ideia do que é Jerusalém. Só sai do monte para ir à

igreja e nunca foi além de trinta ou quarenta quilômetros da própria casa, e isto apenas porque o hospital fica a essa distância. Nunca pôs os pés nesta aldeia e de qualquer modo não a reconheceria, depois das obras que a senhora fez por aqui. O que lhe peço não é nada de especial. O mais importante é que as pessoas se vistam como judeus, não como israelitas, mas sim que tenham o aspecto que a maior parte das pessoas identifica com os judeus: barbas, payot, camisa branca, fato preto, chapéu e uma completa inatividade aos sábados. Podemos ter um ou outro com aspecto árabe e um ou outro padre ortodoxo, para dar cor. É preciso tapar os nossos letreiros das lojas, cafés, mercearias, com outros letreiros escritos em hebraico. As pessoas devem falar baixo para a velha não perceber que falamos português, mas de vez em quando podem gritar uma algaraviada qualquer, em qualquer língua estrangeira, como a língua dos pês ou isso. Enfim, uma coisa simples. São três dias a representar para a velha. Parece-me exequível.

— Acho uma loucura, mas terei o maior prazer em ajudar. Faremos uma

refeição que será uma encenação da última ceia. Se a senhora descobrir a farsa, pelo menos será divertido. Mas como é que ela vai acreditar que fez a viagem até ao Levante?

— Levamo-la até ao Avião.

— Ao bar?

— Sim. Ela nunca viu um avião de perto, por isso o fato de este ter mais de

quarenta anos não a deve fazer desconfiar. Damos-lhe uns sedativos, pomo-la a dormir. Acordará já depois da alegada aterragem. Miss Stela fará de hospedeira. Aliás, essa é uma das fardas que ela usa nos espetáculos. Uma das minhas favoritas. Faz aqueles gestos com as mãos a indicar as saídas e até tem uma daquelas máscaras e um colete de salvação. Adiante, que não a quero maçar com detalhes.

Miss Whittemore remexe o tabaco do fornilho do cachimbo, volta a acendê-lo, e

solta umas baforadas. O professor alisa as barbas.

— Estamos combinados?

— Sim, vou preparar a encenação da última ceia. Já tenho umas ideias. — Tenho algumas reticências. Para quê a encenação? — Acho que isso é coisa que se faz em Jerusalém, não é? Mais do que a missa,

ritualizada como está, precisamos de banquetes verdadeiros. Não é de ceias com hóstias. Precisamos de comida a sério com filosofias a sério. Melhoramos uma religião se o altar voltar a ser a mesa da refeição, tal como aconteceu na sua gênese. Partilhar o pão para que, podendo todos ver as suas necessidades básicas cumpridas, se possam dedicar a encontrar Deus. Há dois tipos de Deus: o que nasce da barriga vazia e o que nasce da barriga cheia. O primeiro é vazio, terroso, carnal, necessário para criar uma sensação de amparo e justiça num mundo em que não há nada disso. O segundo é um luxo, fruto de elucubrações. Não precisamos dele, mas ainda assim fazemo-lo existir. É feito de argumentos. Nasce de barrigas cheias. No primeiro acreditamos com o corpo, com o fígado, com o estômago, com os rins e com o sangue. No segundo acreditamos com a cabeça. O primeiro tem mãos, unhas encardidas, barbas, e relâmpagos na voz. O segundo não tem forma, nem corpo, nem nome. Será para quando todo este teatro?

— É difícil prever, há muita coisa a ser feita. Logo que tenha uma data, avisarei. — Parece perfeito.

— O teatro da vila empresta roupas e adereços. Já falei com eles. As barbas

são fundamentais, mas vamos precisar de uns cabelos para pendurar nas orelhas. Se as mulheres que trabalham para si puderem cortar umas madeixas...

— Se for preciso, corto eu o meu cabelo.

O professor olha para os cabelos de Miss Whittemore sem disfarçar uma careta

de desagrado. Ela não se apercebe e desprende os cabelos, que estão apanhados no alto da cabeça. Abana-se como num anúncio de xampu e o professor faz um esgar de horror. — Sim, se for preciso, usamos o seu cabelo — diz, contrariado. Ana Maria, a velha criada de Miss Whittemore, entra nessa altura com uma travessa de bolos e chá. A sua cara é de indiferença, mas por dentro está confusa com os cabelos adejantes da patroa. Estão sempre a discutir, a patroa e o professor, e de repente entra na sala e o clima é de sensualidade. Não há dúvida de que a embirração é uma forma de paixão. Pousa a travessa em cima da mesa, com a sua cara impassível, e sai. Miss Whittemore volta a apanhar os cabelos, desta vez num rabo de cavalo. O professor sente-se aliviado, como se acabasse de sair do urinol depois de para lá correr em aflição.

— Então estamos combinados. Quando ela aterrar em Jerusalém, vamos

precisar de a hospedar.

— Ficará cá em casa. Quartos não nos faltam. — Perfeito, perfeito.