Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 37 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 36

O professor Borja fora casado com uma mulher de cabelos castanhos, doce e contida, simpática, com os lábios da cor da pele e um nome da cor do céu: Celeste. O seu casamento durou treze anos. Borja nunca esteve propriamente apaixonado, mas para quem nunca se apaixonara — senão pela ciência — aquilo que sentia por Celeste poderia muito bem passar por paixão. Havia ali uma certa ternura fraterna, esquiva, enfim, o suficiente para um casamento à velocidade de cruzeiro romântico. Não foi feliz nem infeliz, e Borja não pensou nisso até chegar aquele dia que nos faz pensar nisso.

Celeste era uma mulher de religiões. Aliás, aquele fora um casamento em que a

ciência pôde abraçar-se à religião, em que a bata pôde juntar-se à batina. Há quem diga que são domínios diferentes, áreas que não devem misturar-se, mas naquele casamento até dormiam na mesma cama. A ciência e a religião confundiam-se debaixo dos lençóis ao ponto de nascer uma menina de cabelos castanhos e com os lábios da cor da pele. Uma relação de duas pessoas converteu-se numa de três, numa coisa mais triangular. Só uma relação que consegue formar um polígono consegue sobreviver, pensava Borja. Quando assenta em dois pontos, não resiste ao tempo, é um segmento de reta muito frágil. É um pontinho a olhar para outro pontinho, não tem a solidez do triângulo e, muito menos, da circunferência. Parte-se como um palito.

A filha de ambos nasceu, desenhou o tal triângulo: chamaram-na Margarida. — Fica Margarida — sugeriu Borja.

— Margarida é um nome bonito.

— É do Fausto.

— Isso eu não sei, mas é um nome bonito. E assim foi batizada, metade porque era um nome bonito, outra metade porque

fizera as paixões de Fausto.

Margarida, filha da ciência de Borja e dos ovários de Celeste, cresceu saudável.

As perninhas arqueadas revelaram coxas fortes e, um dia, sem que o tempo desse por isso, já tinha cinco anos.

Uma criança recém-nascida, julga-se infinita. Não sabe onde é que acaba, onde é

que tem os seus limites. Depois, descobre os pés e fica fascinada. É um bebê que se depara com os seus limites: Ah, é então aqui que finda o meu corpo. E, aos poucos, o mundo vai-se tornando maior, porque a criança se vai tornando mais pequena: antes era tudo e agora não vai além dos pés. Vai-se contraindo. O ego vai-se arrepiando num pontinho e deixando espaço para que as coisas possam existir à sua volta. Surge o Eu e o Tu. A criança cria essa distância, e o melhor que se pode esperar é que essa distância mantenha alguma proximidade. Mas tudo isto faz parte do crescimento, tal como faz parte do encolhimento e da expansão do universo.

O professor Borja, apesar de ser um homem completamente paralelo a si

mesmo, encontrava, por vezes, um carinho oblíquo para dar à filha, entre um sólido platônico e um fá natural, entre uma lei de conservação de energia e um traiçoeiro si bemol. Margarida recebia esses carinhos intermitentes com alegria. Mas não prestava muita atenção ao pai e a maior parte das vezes brincava pelo meio das fórmulas e leis matemáticas sem se aleijar, sem olhar para o científico progenitor, sem reparar sequer na sua presença. Borja também não lhe prestava muita atenção e passava pelos brinquedos dela sem os pisar. Eram duas vidas que ziguezagueavam encaixadas quase sem se tocarem. Contudo, Borja não era um homem sem sentimentos. Era, talvez, demasiado racional. Apesar de pouco tempo despender com Margarida, por vezes — geralmente, quando ela dormia —, imaginava a trágica eventualidade de se ver morrer, imaginava como seria a vida da filha sem ele. Vinham-lhe as lágrimas aos olhos, genuinamente, ao pensar na possibilidade de não a ver crescer. Nessas alturas prometia a si mesmo várias coisas, entre as quais a firme determinação de escrever uma espécie de carta, de testamento. Um texto que o substituiria. Conteria a sua alma, ele transformar-se-ia em palavras escritas, em folhas de papel branco. Nessas folhas estaria um resumo da sua cabeça geométrica e, sobretudo, a anunciação do amor que devotava a Margarida. E, apesar de não ocupar o seu tempo com ela, deixaria escrita, claramente escrita, a tese científica do seu amor. Talvez até o fizesse musicalmente ou com uma projeção ortogonal. Depois decidiria, quando começasse a escrever o tal testamento, essa bíblia pessoal.

Dona Celeste, mãe de Margarida e esposa de Borja, era uma pessoa que sim.

Tudo o que fazia era que sim. Jamais faria que não. Quando Borja a conheceu, era uma menina magra, nem alta nem baixa, ingênua, e bonita, sempre com vestidinhos joviais que baloiçavam à roda das suas ancas. A sua feminidade era muito tímida no que respeita a tamanhos e exuberância. O peitinho, quase de rapaz, ficava bem com o sorriso envergonhado e os dentes pequeninos.

O professor Borja saiu pela primeira vez com ela numa noite em que acabou

por perder o tino da razão e se deixou levar por eflúvios de Vênus. Celeste trabalhava na universidade em que ele, na altura, lecionava. Contudo, não foi por Celeste que o professor Borja se deixou seduzir nessa noite, mas pela aluna que o seu amigo Rodolfo levara para jantar. Estavam os quatro sentados — Borja, Celeste, Rodolfo e Rebeca — num restaurante ribatejano com paios pendurados no teto. Pediram carnes na pedra enquanto o professor se regalava com outras carnes. Rebeca cruzava e descruzava as pernas, agraciada pelos olhos do professor, homem de ciências e, segundo constava, paralelo a si mesmo.

Para Borja, tudo aquilo, toda a sensualidade que ali havia, entre os paios e as

outras carnes, havia começado quando ele comentara um quadro que se verticalizava nas paredes daquele restaurante de inspiração ribatejana:

— Será que conhecem aquelas obras, pinturas ou o que é, em que as figuras

representadas, olhando numa direção, parecem olhar para todas as direções, e não importa se nos colocamos à esquerda ou à direita e o olhar da figura parece seguir-nos? Como é isso possível? Estando eu à esquerda e tu (apontava para Rebeca, acompanhante do seu grande amigo Rodolfo), por exemplo, à direita do quadro, como é possível o olhar da figura manter-se fixo em nós os dois ao mesmo tempo? O olhar é imóvel e no entanto olha-nos aos dois, sem qualquer gesto. E se trocarmos de lugar, se eu e tu trocarmos de lugar, o olhar segue-nos com a sua determinação implacável. Acontece em muitas pinturas. O olhar, o olhar segue-nos como um predador implacável. É como aquele olho nas notas de dólar, lá em cima, a ver tudo. Como Deus, essa ideia religiosa que é um predador supremo: olha-nos do alto para nos consumir no fim.

— Não acredita em Deus? — interrogou Celeste, que ainda o tratava na terceira

pessoa.

— Sou um homem de ciências. Mas neste quadro há qualquer coisa de filosofia

renascentista. Nicolau de Cusa escreveu um livro inteiro sobre este tipo de olhar. Reparem: só se desviarmos os olhos daquela figura (Borja apontava a tal reprodução vulgar que escorria pela parede) é que não a vemos a olhar-nos. Só se a abandonarmos é que ela nos abandona. Como o Deus cristão, essa invenção da patrística.

O professor Borja teve a certeza de que Rebeca, acompanhante de Rodolfo (o seu grande amigo), estremeceu ao ouvir este argumento, e os dedos dela cravaram-se no tecido acrílico da cadeira e ficaram exangues do esforço.

Borja fez uma pequena pausa. Imaginou a geometria das rugas do tecido que se

contorcia sob os dedos de Rebeca. Como um pequeno mar, pensou.

— Esse olhar reúne o universal e o particular, olha todos ao mesmo tempo que

olha para cada um.

Não havia dúvidas para o professor. Rebeca suspirava e, ele diria mesmo,

arfava. A respiração entrecortada sobrepunha-se às suas palavras.

— Imagina-te — Borja falava agora diretamente para Rebeca, para grande

constrangimento do seu amigo Rodolfo e da sua acompanhante Celeste, — a olhar para todas as folhas de uma árvore, a olhar para a copa no seu conjunto ao mesmo tempo que olhas e focas o teu olhar em cada uma das folhas, e tudo isto ao mesmo tempo, como faz conosco a figura que tens representada nesse quadro. Agora é só pensar num Deus que seja um homem sem deixar de ser Deus. Ou mesmo em nós, apesar de Nicolau de Cusa, ainda bem para a sua saúde, não ter falado na possibilidade, senão teleológica, de a própria criatura ser o criador, ou seja, a própria que olha ser a mesma que é olhada, casando o singular ao universal numa coincidentia oppositorum. Mas é ontologicamente que a coisa me interessa.

Rebeca abriu as pernas, separando as coxas num movimento lento. O professor,

apesar de não as ver abrir-se nesse movimento primaveril, sentia o que se passava debaixo da mesa. Rebeca tinha os olhos fechados e as suas mãos continuavam crispadas, parecia faltar-lhe o ar. Nicolau de Cusa tinha aberto a Borja uma porta insuspeitada. Tinha feito com as coxas de Rebeca o que o horário de abertura de expediente faz às portas das lojas comerciais.

Rodolfo acabou por se levantar e sair sem dizer uma palavra. Ele, uma pessoa

digna, saía repleto de indignação. Celeste também deitou uma desculpa para fora da boca de dentes pequeninos e saiu. Ficaram o professor e Rebeca, com um silêncio carregado entre dois pratos de carne na pedra e paios pendurados no teto. Rebeca remexia os pés contra o pênis ereto do professor Borja. Tudo se passava debaixo da mesa. Mas não durou muito, pois Borja viu-se atacado por remorsos. Também ele despejou uma fraca desculpa e levantou-se, com o corpo inclinado pelo vinho e o sexo meio ereto pelos pés de Rebeca. Nunca mais se viram.

No dia seguinte, talvez por remorsos, o professor aparecia em casa de Celeste

cheio de flores. Ela, com os seus dentes pequeninos e as suas ancas ascéticas, desculpou o acesso bestial que tinha violentado o corpo e a mente brilhante de Borja. Perdoou-o como só uma mulher daquelas sabe perdoar e casaram-se meses depois.

Contudo, durante a cerimônia, o professor ainda se interrogava sobre aquele

mistério: Como é que as palavras de Nicolau de Cusa, como é que os pensamentos de um homem do Renascimento, tão racionais, podem ter tido aquele efeito animal naquela aluna, nessa Rebeca? Poderão essas palavras da Renascença alemã estar de algum modo sublime ligadas aos corpúsculos de Krause de Rebeca, que por sua vez estão ligados aos neurônios que libertam as endorfinas que a fazem gozar e gemer de prazer? É um fenômeno estranho e misterioso. Ah, o Universo!

— Aceita esta mulher para sua mulher? — perguntou o padre. — Sim — respondeu o noivo. E ainda completou: — Ah, o universo! Tal exclamação foi tomada por um momento de enlevo, e as testemunhas

comoveram-se. Celeste, já habituada a que estranhas palavras saíssem daquelas barbas, não ligou. Estava nervosa, remexia as mãos, que apertavam o vestido. Ouviu o “sim”, era isso que lhe importava. O universo não lhe dizia nada.