Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 10 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 9

O pastor Ari está sentado ao lado de Rosa, por entre as ovelhas, num campo de funcho e alabaças. Rosa está sentada no chão com os braços à volta das pernas, dobradas contra o peito. Ao fundo, vê-se o monte da sua avó, branco e azul e preto, com duas chaminés e um grande forno para cozer o pão. Ari fuma um cigarro enquanto toca uns acordes no cavaquinho. O cão está deitado à sombra de um loureiro, a dormir.

Ari é o único amigo de Rosa, uma amizade que vem de criança, da escola

primária. Ari é mais velho seis anos, mas quando Rosa entrou na escola, ele ainda por lá andava cultivando o seu insucesso escolar. É um rapaz forte, de cabelos encaracolados, cujo maior desejo, em criança, era trabalhar no teatro da vila, no meio dos atores e dos encenadores, dos coreógrafos, no meio dos filmes a cores e a preto e branco. Acabou por ver esse sonho concretizado e, aos sábados de manhã, quando há projeção de filmes na velha sala do teatro, é Ari quem senta as pessoas nas cadeiras com a ajuda de uma lanterna. Pega-lhes no bilhete e indica-lhes o lugar e isso enche-o de orgulho. Anda com a sua lanterna, à semelhança de Diógenes, o cínico, mas não procura um homem como o outro. Aponta a luz para o número que corresponde ao destino de cada espectador e vaticina-lhes:

— Eis o seu lugar, ao lado do cavalheiro de chapéu castanho. A senhora que trabalha na bilheteira, bem mais velha do que ele, óculos na

ponta do nariz e dedos a cheirar a lixívia, admira os seus caracóis rebeldes e diz-lhe:

— Ari, quando o vejo, lá no escuro (abro sempre uma fresta nos cortinados para

espreitar), é uma luz na minha vida.

— É da lanterna...

— A sua lanterna ilumina-me a vida.

— É muito simpática. Eu nem mereço, só aponto a lanterna para o lugar... — Só aponta a lanterna? Quem dera que na nossa vida houvesse um arrumador

como o Ari, a apontar a lanterna para o lugar a que nos deveríamos dirigir, a iluminar o nosso caminho. Mas não, não temos ninguém. A minha mãe, que Deus a tenha, esperava isso do Senhor Jesus, mas eu nunca lhe vi a lanterna nem o vi arrumar coisa nenhuma.

— Só a senhora é que acha isso. Sou um pastor com a quarta classe, a mim

ninguém me liga.

— É esta sociedade, sabe... São uns tolos. É a sua luz que os ofusca, está a

apontar-lhes a lanterna aos olhos e eles não aguentam tanto brilho. Ficam cegos, são incapazes de ver o belo ser humano que a aponta.

Enquanto apascenta as ovelhas, Ari anda com a sua lanterna e nunca a larga. À

noite aponta-a para as estrelas e para os olhos de Rosa. Ela fica sempre aborrecida com isso, às vezes furiosa, pois deixa de ver durante uns momentos e pensa: posso cair e magoar os joelhos e não há nada mais feio do que uma mulher com feridas nos joelhos. Ainda por cima, gosto de tirar as crostas com as unhas, em vez de as deixar cair como os dentes dos velhos. Fico a sangrar outra vez e tenho medo de que apareçam mais crostas e eu queira tirá-las com as unhas e isto nunca mais acabe e os meus joelhos fiquem horríveis.

Os sapatos de Rosa estão ao seu lado, as ervas chegam-lhe ao peito e Ari,

encostado a ela, pousa o cavaquinho. Deita-se no chão com as mãos atrás da cabeça.

— O padre diz que o meu nome quer dizer “leão”. — Leão?

— Pois. Já viste isto, Rosa? É como a profecia de Isaías: o leão deitar-se-á com as ovelhas. E cá estou eu, deitado.

— Tenho de ir para casa. Não posso deixar a minha avó sozinha tanto tempo. Mas vai-se deixando ficar, até sentir alguma coisa no corpo, uma espécie de

dor, que lhe diz que já é tarde. Abre os olhos e começa a caminhar para casa. Junto à parede de uma ruína, que foi em tempos uma queijaria, encontra um ninho caído e um pássaro morto. Baixa-se e sente que o cadáver ainda está quente. Pega no ninho e repara que tem um pequeno ovo, inteiro. Pega no ovo com cuidado, limpando-o dos raminhos e da sujidade, e guarda-o no bolso do casaco. Quando era criança e encontrava pássaros mortos, semeava-os junto a árvores e esperava que se transformassem em novos pássaros. Ou, na pior das hipóteses, e se fossem preguiçosos, em árvores, em bichos que abrem os braços mas não voam, que ficam com os pés enterrados como palavras profundas. Os pássaros mortos também a fazem recordar-se do pai, João Lucas Marcos Mateus, que costumava sentar-se no alpendre a fumar e a beber, depois de ter espalhado aveia junto ao poço para atrair passarinhos e matá-los com a pressão de ar. Cozinhava-os com massa de pimentão, abria-os como livros, e fritava-os em banha, vinho branco, vinagre, alho e louro. Comia-se tudo, até a cabeça e os ossos, e a única coisa que ia para o lixo era o bico. Desfazia-se tudo na boca. João Lucas costumava dizer que comer passarinhos era ir além da morte. A morte come muita coisa, mas deixa os ossos, não é, Rosa? Quando comemos pardais estamos a escarrar na cabeça da puta da morte, estamos a dizer-lhe que somos capazes de fazer coisas de que ela não é capaz.

João Lucas Marcos Mateus tinha uma profunda aversão à morte e a tudo o que

isso implicava, e quando Rosa caminhava pelas ruas, de mão dada com o pai, ele olhava para as mulheres que passavam e dizia: putas das mulheres, que estão sempre a envelhecer. E ficava furioso, com as sobrancelhas caídas, chegando a pontapear as paredes depois de passar uma mulher que ele conhecera mais nova e que agora, depois de vários anos, já não exibia a frescura de outrora. Socava uma parede até o sangue começar a escorrer-lhe das mãos e Rosa começar a chorar e a enrolar os cabelos nos dedos. Então, João Lucas Marcos Mateus agarrava-lhe a mão e beijava-a, dizendo muito baixinho: putas das mulheres.

Rosa corre para casa com os olhos a encherem-se de lágrimas, não por causa

de alguma dor, mas por causa do vento. Leva os braços abertos e uma espécie de sorriso, uma boca de braços abertos, enquanto desce o monte. Pássaros fogem do poço e da romãzeira onde pousam. As ervas mais bicudas arranham-lhe as pernas. Descer o monte é mais rápido do que subir o monte, o tempo rebola para baixo mais depressa do que para cima.

Chega arquejante ao alpendre e entra em casa, dirigindo-se logo para o seu

quarto. Senta-se no chão, em cima do tapete, e tira o ovo de tordo do bolso do casaco. Põe-no na boca com muita cautela, pousado na língua úmida, no ninho das palavras, e deita-se na cama, a olhar para o teto. Tenta relaxar ao máximo, tendo muito cuidado para não partir o ovo. Leva a mão esquerda à cara e, fazendo uma pinça com o indicador e o polegar, massaja o espaço entre as duas sobrancelhas. A mão direita repousa sobre o ventre, e, em poucos minutos, Rosa adormece. Sonha que voa por cima do mundo. Sente os olhos com lágrimas como se corresse pelo monte abaixo e o vento lhe batesse na cara.

— Rosa!

A avó chama-a da cozinha, mas ela não ouve. Está a voar e a gritar os nomes

dos quatro evangelistas, como a avó lhe ensinou a fazer. Os evangelistas aparecem em cada uma das quatro direções, um a norte, outro a sul, outro a oeste e outro a leste, e protegem o viajante, diz a avó. É preciso chamá-los quando se caminha sozinho. E esses nomes juntos fazem o nome do seu pai, que ainda anda, com toda a certeza, ao lado dela para a proteger, ou então por cima dela, como um guarda-chuva, como Deus.

Rosa acorda e trinca o ovo. Mastiga-o com a casca e engole tudo, enquanto

alguma gema se mistura com a clara e lhe escorre pelo queixo. Já não precisa dele, já lhe serviu de balão, para voar nos sonhos. É isso que o ovo tem lá dentro: vontade de voar. Rosa limpa o queixo com os dedos e os dedos ao tapete do chão. Só então corre para ver o que quer a avó.

A velha está sentada numa cadeira de madeira, na cozinha, com o rosário no

colo. Os lábios pendem como candeeiros de teto e os braços escorrem ao longo do corpo. Rosa assusta-se, a avó parece morta, com o olhar revirado para fora deste mundo. Abana-a e grita. Não tanto por nervosismo, mas porque a avó é quase surda. Rosa encosta os lábios aos ouvidos dela e grita-lhe o nome. Não há reação. Recua uns passos e corre para o corredor, pega no telefone e marca o número dos bombeiros. Precisa de ligar mais do que uma vez, porque se engana, e à primeira tentativa atende-lhe o talhante. Volta para a cozinha e pega nas mãos da avó, que estão murchas como cabelos brancos. Esfrega-as para que aqueçam e de vez em quando grita, ordena-lhe que acorde. Invoca Cristo e todos os santos, a Virgem e os beatos. Que são surdos como a avó e não comparecem.