Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 4
Quando fez a primeira comunhão, Rosa disse ao padre que a sua mãe não era a sua mãe, mas sim a Virgem, que a tinha substituído. O padre, horrorizado, admoestou-a e chegou a puxar-lhe as saias e dar-lhe umas palmadas no rabo. Castigo esse que o clérigo apreciou e passou a prodigalizar com alguma frequência. Rosa, teimosa, mantinha a teoria de que a sua mãe não era a sua mãe, mas a Santa das santas, a própria Mãe de Deus, a Virgem, a Rainha do Céu.
O caso era ainda mais perverso, pois Isabel (ou a Santa) havia começado a
frequentar a igreja diariamente, coisa que jamais tinha feito. Em criança, a mãe dela ensinara-lhe alguns conceitos básicos do catolicismo e havia conseguido, contra a vontade do marido, que fizesse a primeira comunhão. Mas a religiosidade que a mãe de Isabel se esforçava por fazer crescer na filha era apagada pela educação humanista e ateia que o marido impunha, sublinhando em eternas discussões conjugais o seu desprezo pela Igreja e pelo pensamento religioso em geral. Para ele era tudo de uma ignorância primária, uma superstição atroz que deveria ser considerada crime e erradicada da sociedade. Assim, Isabel acabou por abraçar a falta de Deus que o pai pregava.
Rosa sabia, apesar da sua idade ainda tão ingênua, que a mãe não gostava de
padres nem de crucifixos, que não era devota como o pai nem como os avós maternos. O fato de ver agora a mãe a rezar reforçava a sua crença: aquela não era Isabel, a sua mãe, mas Maria, a mãe de Deus. Havia ainda outro pormenor muito fácil de verificar e que confundia Rosa: as mãos da sua mãe já não eram frias como as da Virgem de porcelana. Pelo contrário, eram quentes e ásperas, menos ossudas e mais carinhosas. Eram mãos que a agarravam e a penteavam e eram a anunciação do corpo todo que aí vinha. Agora, a mãe abraçava-a, fazia-lhe festas e beijava-a, uma demonstração de afetos que antes era de uma raridade confrangedora e que passou a ser de uma frequência desconfortável. Rosa achava aquela proximidade aberrante e esquivava-se sempre que podia. Reparava que havia algumas lágrimas nos olhos da mãe, mas isso ainda a assustava mais, tornando-a mais esquiva.
Agora, depois da transformação divina, a mãe de Rosa chegava a passar horas
ajoelhada na penumbra da igreja, nas últimas filas da nave central, a rezar com a cabeça encostada às mãos. Chegava a casa e voltava a rezar em frente da estátua da Virgem de porcelana. Quando acabava, arrumava o terço e pendurava-o nas mãos frias da imagem.
A princípio, havia alguma diferença de temperatura entre a porcelana pintada e a
sua pele, mas essa diferença foi-se esbatendo. Pouco a pouco, as mãos de Isabel voltaram a arrefecer.
Nossa Senhora foi-se esquecendo, aos poucos, da sua origem e de onde tinha
vindo. O quotidiano dava-lhe cabo da memória, da eternidade toda. De cada vez que João Lucas Marcos Mateus se deitava todo suado em cima dela, com nós dos dedos que eram como cotovelos, a Santa gemia de dor, agarrando-se aos lençóis, enjoada e enojada, mas mexendo as ancas, contudo. O instinto é um processo admirável que se sobrepõe a todas as virtudes, mesmo às mais celestiais, castas e abençoadas. Aos poucos, a Virgem começou a beber das mesmas garrafas de que bebera a verdadeira mãe de Rosa e começou a comprar outras. Andava por casa com calças de fato de treino de acrílico, com saltos altos ou pantufas, a desentalar as cuecas do rabo, a praguejar, e a beber whisky barato. Quando João Lucas Marcos Mateus chegava a casa, ela estava quase sempre bêbeda, não havia jantar, e o homem enfurecia-se. Batia-lhe, possesso, mas ela parecia não se importar. A condição divina da Santa estava completamente esquecida. Agora, era apenas uma mulher pobre e sem esperança. Rosa, que antes andara tão esquiva, voltava a ter vontade de a agarrar e de a abraçar, mas agora a Santa tinha as mãos frias como as da sua mãe, como a porcelana da estátua da Virgem, e era ela que se esquivava da filha. E, naturalmente, deixou de pegar no terço que estava pendurado nas mãos de porcelana da estátua da Virgem, pois já não se lembrava de rezar, já não sabia murmurar nenhuma oração. Quando era assediada nas ruas, sentia uma languidez estranha e soltava os seus sorrisos. Aos poucos foi preenchendo a vida com novos amantes e, por fim, acabou por fugir com um, abandonando a filha e o marido, e passando a viver como uma puta, ela que era a Santa das Santas, Dei Genetrix, a do ventre abençoado.
João Lucas Marcos Mateus, quando soube que havia sido abandonado, ficou em casa sem dizer nada, a cheirar a desodorizante e completamente perdido, durante mais de uma semana. Rosa passava por ele sem nunca ouvir uma palavra. O pai fazia o que tinha a fazer, mecanicamente, apenas torcendo os lábios de uma maneira que Rosa achava esquisita. Ao fim de algum tempo, recomeçou a sair, mas já não falava a ninguém nem gritava à noite, não ficava a cair de bêbedo nem desafiava os homens da aldeia a lutarem com ele.