Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 32
A caixa de carga da carrinha está cheia de fruta, maçãs e peras, quando Alípio passa por ela. Com um gesto rápido, rouba uma maçã vermelha e esconde-a nas calças velhas. Trabalha na construção e ganha relativamente bem, mas de vez em quando é apanhado a roubar. Dizem que é uma doença. Ele não precisa, tem trabalho, não ganha mal. O professor Borja, por vezes, paga-lhe um copo. Gosta dele porque é calado e quem fala muito prefere pessoas que se escondem dentro delas mesmas e que parecem ouvir os outros.
Quando Alípio recebe o dinheiro que ganha na construção, vai de imediato aos
correios e põe tudo num envelope para enviar para o Uganda. Uma vez viu uma fotografia de meninos a passar fome e nunca mais foi capaz de fazer outra coisa que não enviar tudo o que ganha para África. A associação que escolheu para enviar o dinheiro do seu trabalho já não existe e quem recebe os seus envelopes brancos não é menino nenhum. Sai dos correios, com as roupas gastas e cansadas, e procura um pomar. Come bolotas de azinho, como os porcos, porque nunca tem dinheiro. Come frutas que apanha das árvores de algum quintal, rouba das hortas dos vizinhos e, quando está na vila, come os restos dos tabuleiros do self-service.
— Vou precisar da tua ajuda, Alípio — diz-lhe o professor, quase num sussurro. — É o quê?
— Preciso que me ajudes a levar uma velha a Jerusalém. Não faças essa cara,
que não é mesmo Jerusalém, é a aldeia da inglesa. Preciso de uma pessoa para conduzir o meu carro, que eu vou andar ocupado com a velha.
Alípio faz que sim com a cabeça e o professor leva-o ao café do Zé Romão. O
professor encosta-se ao balcão de mármore salpicado de tinto. Alípio arrasta-se atrás dele, baixo, um pouco gordo, sem bigode nem barba. Deixa que o mármore do balcão se encoste ao seu peito.
Zé Romão pergunta:
— Vão querer o quê?
— Dois copos de vinho — responde o professor. — Branco ou tinto?
— Escolhe tu, ó Alípio.
— Não sou capaz. A vida nunca é branco ou tinto. Essas decisões custam-me a
tomar.
— São dois tintos.
Zé Romão diz qualquer coisa, mas o professor já não o ouve, pois vira-se ao
ouvir a porta do café a abrir-se. O sargento Oliveira entra com o seu andar pesado, sem cumprimentar ninguém. Senta-se numa mesa e pede um café.
O professor põe uma nota em cima do balcão para pagar o vinho e prepara-se
para sair, seguido por Alípio. O sargento estica as pernas à frente deles, impedindo-os de passar.
— Já vão? — pergunta ele.
— Já, sargento Pereira — diz o professor.
— O meu nome é Oliveira.
— É a minha cabeça que já não funciona como quando era novo. Oliveira é um
belo apelido, assenta-lhe que nem uma árvore.
— O que é que andas a fazer com esse maluco? — Sabe, sargento, a loucura, quando dá a um grande número de pessoas, chama-se sociedade contemporânea. Quando dá a uma pessoa só, interna-se essa pessoa. O Alípio não tem a normalidade, ou boçalidade, de muitos, mas não é por isso...
— Espera por mim lá fora.
— Estou com um bocadinho de pressa.
O sargento levanta a cabeça e olha-o nos olhos. — Bom, então, estou lá fora à espera — diz o professor.