Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 74
A sua alma era uma casa em cima de um monte, uma casa caiada de branco e com rodapé cor de vinho. Era bom sentarmo-nos na sala à lareira e sentir o cheiro dos orégãos na cozinha a vir do corredor como um pássaro. E pousar os dedos numa manta de lã, com motivos geométricos e cores azedas, passar a mão pelo gato a dormir ao colo, sentir o cheiro da lareira a entranhar-se na roupa, os dias a tornarem-se mais compridos do que os nossos pensamentos e os barulhos que batem contra a porta, o barulho dos besouros contra a madeira. Era assim a alma de Rosa, como uma casa a precisar de ser caiada. Longe, depois daquilo que somos, há um campo florido, cheio de macelas e camomila, onde todas as pessoas que nunca se encontraram nos seus pensamentos cruzam as suas pernas e as suas palavras. Longe, depois de todas as nossas diferenças, há um campo de flores onde nos sentamos a beber vinho. Mas Rosa esqueceu-se de tudo e, ao migrar para a cidade, desertificou-se como o Alentejo. Esqueceu os cheiros das margaridas esmagadas e o modo como as pegas lhe provocavam asco. É uma santa que se esqueceu do céu.
Rosa morre num quarto desalugado, velha — mas com apenas quarenta e dois
anos. Leva consigo a verdade do que se passou naquela noite na aldeia da inglesa. O professor não teria tido coragem de fazer uma coisa daquelas, de matar para fazer perpetuar as suas ideias, não sabia amar até à morte. Ela fê-lo por ele, por Borja e pela sua ciência, a custo de duas vidas. Duas não, três, porque a dela também se perdeu nesse dia, apesar de, aos olhos dos que por aqui andam, ela parecer ter continuado viva. No entanto, era apenas um caixão onde os homens depositavam a sua luxúria.
Por vezes, Rosa era assolada por dúvidas: será que cometera um ato hediondo
por motivos altruístas? Ou teria sido porque, no fundo, odiava o professor? Talvez aquele plano fatal não passasse de uma racionalização para desculpar a vileza do ato de matar por ódio.
De resto, não criou um filho como os árabes dizem ser garantia de eternidade,
mas criou alguma fama à volta de Borja, apesar de ter sido demasiado efêmera, pois as ideias dele não se susteriam sem o crime passional. Os livros do professor venderam alguma coisa, saíram do anonimato, mas morreram pouco depois, como um corvo sem terra para pousar.
É certo e sabido que o final feliz é uma invenção humana, uma necessidade de
obliterar a morte. A vida nunca acaba bem. Porque todas as histórias de seres vivos acabam misturadas com a terra, acabam no caixão. Esta não é exceção, porque é fiel ao fatalismo da nossa condição de mortais com pretensões a outras coisas. À vida eterna, entre outras coisas.
Rosa viveu mais vinte anos após a morte do professor. No seu momento
derradeiro, no seu leito de morte (que é a mesma cama em que ganhava a vida), ela, que já havia morrido há duas décadas, deixa-se morrer levada por uma doença de Vênus. Ninguém morre só uma vez, disse Harold Estefania, e Rosa sabe disso muito bem. Nesse instante de morte, no umbral da porta, encosta-se a sua senhoria, uma mulher de cinquenta e cinco anos, com cheiro a carne guisada, muita gordura no corpo e cabelos brancos presos em cima da cabeça. Pergunta-lhe se quer que chame um médico, mas Rosa limita-se a insultá-la. A senhoria mantém-se ali, a vê-la morrer, com uma placidez notável. Tem as mãos enfiadas nos bolsos da bata e de vez em quando assobia uma canção popular.
Rosa pronuncia, quando expira e por mera coincidência, as mesmas palavras que
Goethe disse ao morrer: Mais luz. A senhoria apressa-se, meio contrariada, a acender a lâmpada do teto e a do corredor. Rosa repete ainda mais uma vez:
— Mais luz!
— Está acesa! — protesta a senhoria.
No derradeiro momento, Rosa vê o pastor Ari com a sua lanterna e corre para
ele com os braços abertos e um sorriso emoldurado pela sua alma do campo.
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