Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 17
Rosa costuma ler um pouco antes de dormir, até os olhos se apagarem. Lê westerns na maior parte das vezes, lê policiais nas restantes. Os livros que lê têm títulos como Smith, o Extravagante, Vingança mortal e dois copos de whisky, Lei da bala com mariachis, e Mexicali Rose morta no deserto. Para Rosa, o cansaço é o livro mais eficaz, mas quando não consegue dormir um bom western faz o efeito.
Matilde nunca lê, apenas conta o dinheiro, que coloca em envelopes para enviar
ao pai que vive na casa de banho e à filha que raramente vê. Além disso faz tricô, cachecóis e barretes e meias para o Inverno. Quando se deita, adormece profundamente, por vezes fala, e sonha com máquinas enferrujadas e flores carnívoras. Quando está acordada, Matilde acha que é normal sonhar com máquinas abandonadas. Se o nosso sangue sabe a ferrugem, com que mais poderíamos sonhar à noite senão com o nosso corpo avariado, contaminado pela própria vida que corre nas veias e que sabe a ferro-velho?
Ouvem-se os grilos e as rãs a entrar pela noite dentro, os gritos dos mochos e
os miados das gatas. Rosa tenta adormecer, de lado, enroscada sobre si mesma, enquanto Matilde dorme profundamente, com um ligeiro ressonar. A porta do quarto entreabre-se e uma frincha de luz surge na escuridão acompanhada do barulho rouco das dobradiças. Um vulto pesado entra no quarto, fechando a porta, cuidadosamente, atrás de si. Dá dois passos em frente e para entre as duas camas.
Rosa ouve a sua respiração, ouve-o a baixar-se. Já não sente o ressonar de
Matilde, mas uns sussurros preenchem o silêncio. A madeira da cama de Matilde solta uns estalidos quando Santos & Santos entra para debaixo dos lençóis. Rosa finge que dorme, apesar dos barulhos que eles fazem, apesar da cabeceira da cama a bater ritmicamente na parede, dos estalos da madeira, das respirações ofegantes.
De manhã, Matilde senta-se na cama e veste um roupão. Calça uns chinelos e
levanta-se para ir tomar banho. Volta passados quinze minutos, ainda Rosa finge que dorme, e começa a vestir-se. Primeiro o soutien e uma camisola interior, depois as cuecas. Olha-se ao espelho e desiste, volta a ficar nua, e escolhe outra roupa interior. Liga o rádio que está na mesinha de cabeceira e põe-no a tocar bastante alto, como é costume: “Dantes amava-se a pé/ agora é de avião/ a minha ilha tropical/ era o jardim municipal/ A economia é que nos diz/ como ser feliz/ Envelhecemos assim:/ de crianças/ a número nas finanças.”
Rosa espreguiça-se e levanta-se a esfregar os olhos. Vai para a casa de banho,
arrastando os pés e levando uma toalha nas mãos.