Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 62 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 63

Os elementos da ordem macedônia, fardados em vez de despidos, percorrem as ruas a dizer coisas em esperanto, poemas, primeiro da sequela da Odisseia, depois uma oração escrita pelo poeta Petar Stamboliski:

Ouvi, Senhor, eu queria dar-vos o campo cheio de

trabalho,

a transbordar das suas sementes e a crescer cereais

até ao céu.

Pois é assim que a terra cresce, para cima Primeiro com frutos e termina em pássaros. Queria dar-vos

os nomes de todas as coisas já frutificados, queria dar-vos, em vez de árvores, frutos,

em vez de cônjuges, crianças,

em vez de mar, peixes amanhados.

Queria dar-vos o espaço que não acaba

dentro de uma caixa de sapatos

e o nosso ódio desfeito em amor,

a escorrer-me pelas mãos como água.

Os homens usam kipah, outros chapéu de feltro, todos usam caracóis nas

patilhas e camisa branca. Mas também há árabes e cristãos (os que não quiseram disfarçar-se) e turistas (os lisboetas que têm casa de fim de semana nas redondezas). Há um ou outro músico de filarmônicas que tocam melodias orientais, abusando da escala arábica.

O caseiro Rato está vestido de padre ortodoxo, obrigado a esse papel por Miss

Whittemore, todo solene e com barbas enormes — parece o professor Borja —, balandrau preto e cinto de couro com uma grande fivela de metal. Dá as boas-vindas, que Antónia não percebe mas agradece com os braços estendidos.

O professor aponta para a rua principal e diz que foi por ali que Nosso Senhor

levou a cruz aos ombros. Aponta para uma esquina e diz que foi ali que lhe deram vinagre a beber.

— Quero ver uma missa — diz Antónia, invulgarmente desperta. — Muito bem, vamos ver uma missa ortodoxa. — Ortodoxa? — pergunta o padre disfarçado, o caseiro Rato. — Completamente — garante Borja.

— Não faço ideia de como é isso.

— Temos de cantar — diz o professor. — Chama o nigeriano e o hindu, que eles

podem fazê-lo nas suas próprias línguas. Qualquer língua estrangeira dá um bom grego. O pão não é como as nossas hóstias, é pão levedado. Qualquer pão saloio serve. O resto inventa-se. Eu fico ao pé de ti para servir de ponto.

Rosa empurra a avó pela rua acima até à igreja. O professor esbraceja para que

as pessoas se aproximem e venham assistir à missa.

O caseiro Rato chega com o feiticeiro iorubá e com o hindu, que se sentam ao

lado do altar. O nigeriano canta, enquanto bate palmas, uma música tradicional em que o pênis de Sango queima a terra com a sua virilidade. Depois é a vez do hindu, que entoa uma melodia mais calma, arrastada, dedicada a Indra. O professor manda o caseiro erguer os braços e dizer qualquer coisa. O outro obedece, mas passados uns minutos já lhe falta a inspiração. Um dos elementos da ordem macedônia, que assiste à missa, faz um esforço para evitar um ataque de riso. E diz:

— Professor, conte-nos aquilo das minhocas, que o Lacerda não acredita que o

professor escreveu um livro que fala sobre os cagalhões das minhocas.

— Excelente ideia — diz o professor, que se levanta para falar no púlpito, não

sem antes esclarecer Antónia de que é costume, em Jerusalém, os visitantes dizerem o sermão.

— Quereis então — pergunta o professor em tom profético, — ouvir falar da

minhoca e dos seus dejetos? A mais útil trampa, a rainha das fezes, aquela de que ninguém pode negar a importância?

Faz uma pausa teatral antes de continuar:

— Fiquem sabendo que, no antigo Egito, a pena de morte era o castigo para

quem maltratava a minhoca. Cleópatra não era burra nenhuma. Quem é que fertilizava o vale do Nilo? A resposta assoma aos vossos lábios, vejo as vossas bocas a fecharem-se para pronunciarem o “m” de minhoca. Sim, meus caros ex-alunos, é o verme rastejante que pisamos sem qualquer misericórdia, é esse que fertiliza. Não eram os egípcios, felás ou nobres, nem os escravos hebreus, nem nenhum egiptólogo. Era a minhoca, louvada seja.

A guedelha do professor, rarefeita e desgrenhada por um vendaval de emoção,

ondula sem regra, oblíqua aos seus pensamentos.

— A minhoca é o grande fertilizante da natureza. Come matéria orgânica em

decomposição, refastela-se com a nossa morte, adora cadáveres e vai adorar, tenho a certeza que vai, os vossos. Estes seres não se ufanam da sua grande obra, esse opus magnum, pelo contrário, subtraem-se aos nossos olhos, rastejam aos nossos pés.

O professor aponta para os seus pés. Os sapatos estão a precisar de graxa,

pensa. Depois explode:

— E são puras, não têm doenças, não transmitem doenças. O verme rastejante

é puríssimo, apesar do parentesco com o verme parasita e, especialmente, essoutro que gosta de habitar as nossas entranhas, a lombriga.

É uma espécie de êxtase. O professor é o profeta da minhoca. Longas barbas,

braços estendidos para o céu como uma súplica e mocassins a precisar de graxa. Os raros cabelos despenteiam-se em estranhos padrões que lhe refazem a moldura do rosto a cada esbracejar.

— Humilíssimas! Escondem-se debaixo de um aspecto repugnante, como tantas

coisas boas e belas desta vida. Há tanta coisa bela que se esconde debaixo de pelos. É debaixo de um dragão que encontram um tesouro. Quando vos cheirar a podre, procurem aí. Chafurdem nessa lama!

— O padre da minha aldeia diz exatamente a mesma coisa — diz alguém da

assistência.

— Não me insultem, isto é ciência, não é astrologia. Os padres é que pensam

no céu. Aqui estamos a falar da terra e do que ela encerra. A minhoca não se alimenta do que vive, mas do que é morto e, milagre!, caga verdadeiras riquezas. Transforma dejetos em húmus, que é dejeto ele próprio. Já se sabe, a vida nasce da merda. E às vezes é ela própria uma merda. Não é demais lembrar que “húmus” tem a mesma raiz da palavra “homem”. Entre um e outro, só a minhoca os separa: “Eu disse à podridão: tu és o meu pai; e aos bichos: vós sois minha mãe e minha irmã”, disse Job, concordando comigo.

A assistência aplaude e Antónia também, apesar de não ter ouvido quase nada e de não ter percebido o pouco que ouviu.

— Rosa, ele falou em minhocas? — pergunta ela à saída. — A hóstia soube-me

a pão alentejano, igual ao de cabeço.