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Capítulo 48
O coração do professor Borja, um músculo igual ao dos outros homens, bombeia o sangue ao mesmo tempo que usa o seu mais belo vestido fibrosseroso chamado pericárdio. Mas, ao contrário da maior parte dos corações, cujas sístole e diástole são uma rotina a ser levada dentro de ritmos aceitáveis pela medicina, o de Borja bate violentamente, muito acima do aconselhável pelas regras sociais e pelo cardiologista. É como a cauda de um cão feliz: bate com violência. O motivo de tal efeméride num homem tão paralelo a si mesmo é simples, provinciano: Rosa. Naquele dia, tinham ido os dois falar com o presidente da Câmara para arranjar mais alguns adereços, especialmente cartazes para serem pintados com letras hebraicas. Saíram os dois do gabinete da câmara e o professor levou Rosa a uma ourivesaria, a única num raio de sessenta quilômetros.
O professor olha para Rosa enquanto andam, repara na leve penugem a surgir
das coxas que, por sua vez, surgem de um vestidinho muito fininho. Param em frente a uma vitrina, e as sobrancelhas de Rosa exibem-se em toda a sua espessura enquanto olha para a montra da ourivesaria, para um anel simples encimado por uma pedra cuja preciosidade se esbate face a quem a olha. Borja entra na loja e compra o anel.
Sai com ele na mão, dentro de uma daquelas caixinhas cujo interior é de
algodão, e oferece-o a Rosa.
— Queria oferecer-lhe isto — diz, timorato, enquanto mostra o interior da
caixinha e o brilho do anel.
Ela está surpresa. Cora sem dizer nada e aperta as duas mãos à frente do peito
num gesto nervoso.
Borja, atrevido como não é seu costume no que diz respeito às coisas do amor,
pega-lhe na mão e toma a iniciativa de o colocar no anelar de Rosa.
Ela olha o anel no seu dedo, olha o velho que se deslumbra à sua frente —
poderia ser seu avô — e arremessa os braços num gesto incontido, um abraço, encostando os seus lábios (emoldurados por um buço ligeiro, delicado) à cara do homem.
Caminham então lado a lado como duas crianças na hora do recreio. O estéril
homem das matemáticas e outras exatidões está perfeitamente apaixonado por uma rapariga exageradamente nova, uma situação completamente perpendicular a si mesmo.
Desde a morte da mulher e da filha que o professor Borja vivia uma vida
racional — apesar dos seus arroubos emocionais e quase terroristas — em que os anos se seguiam uns aos outros. Levava uma vida lógica, sem revoltas cronológicas, de trás para a frente, uma flecha em direção ao alvo que os mortos que ainda são vivos chamam de morte. Mas à medida que essa vida avançava, em excesso de velocidade, contra o túmulo que viaja em contramão, Borja pôde esquecer o seu espaço vazio, esse lugar dramático chamado Margarida. O buraco cheio de nada vivia dentro dele, mas a entrada fora tapada com a razão, que é uma espécie de betume para estas situações.
Rosa para com frequência e fica a olhar para o dedo e para o anel. Sorri e olha
para o professor.
Ele, mecanicamente, aperta o casaco. Sentimentalmente, está apenas a tapar o
buraco que tem no peito. É um gesto inconsciente. O seu peito não é uma visão agradável: o que se vê naquela caixa torácica é um terreno devastado pela dor e uma camisa aos quadrados fora de moda.
Passam pelo jardim e ele, depois de verificar que ninguém os vê, beija-a nos
lábios. Rosa deixa os seus lábios complacentes, rendidos. Ela não sente nada, exceto alguma confusão. Um anel, e um homem tão sábio, admirável, que gosta dela, uma rapariga demasiadamente do campo. É tudo muito lisonjeiro e Rosa sente-se cativada. Não é como esmagar margaridas silvestres, mas tem outros atrativos.
Ao chegar ao terreno do monte, caminham de mãos dadas, como andam os
adolescentes a mastigar pastilhas elásticas pelas ruas. São duas crianças, uma ao lado da outra, compenetradas nos seus sonhos. Entre os dois há uma vida que não se vê. A vida que ele viveu e ela não. Apesar das mãos dadas, entre eles há um enorme abismo. Uma prova de que o Nada não só existe como existe em todo o lado, mesmo quando damos as mãos com força.
Nesse fim de tarde caminham assim, de mãos dadas, e entre essas mãos
juntas, quase misturadas, está o tal vazio imenso. Não tem espaço físico, mas tem muitos metros quadrados de área metafísica.