Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 46 de 73

Páginas do PDF

Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 47

A escova dos dentes de Antónia está dentro do recipiente do piaçaba.

— Da próxima vez esfrego-lhe a dentadura com o piaçaba — diz Rosa. — O quê? — pergunta a avó.

— DA PRÓXIMA...

Mas interrompe-se, pois sabe que não o fará porque tem nojo da dentadura. Rosa senta-se à mesa e pega no correio. Só há cartas com contas para pagar,

da luz e do telefone, dos Bombeiros e da Câmara. Rosa lê-as em voz alta para a avó, de uma ponta à outra. São como cartas de familiares distantes e dão a sensação de que alguém quer saber delas: “Cliente número 763970, a sua conta encontra-se em pagamento, etc.”

Quando acaba de ler aquilo — folhas brancas manchadas a preto —, começa a

pensar no milagre que são aquelas nódoas, aquelas letras, num espaço tão perfeito. Umas manchas negras, impressas, fazem contas, dizem-nos coisas, contam histórias e mandam-nos para tribunal, matam-nos, salvam-nos. Pega nos envelopes, vira-os de um lado, vira-os do outro, pega nas cartas, observa-as.

Rosa levanta a cabeça e olha para a avó. Diz-lhe: — Ganhamos a rifa.

O tom é ligeiro, não tem o sentimento e a emoção de alguém que ganhou uma

rifa.

— Quê?

— Ganhamos a rifa dos bombeiros. Uma viagem à Terra Santa. — Eu sempre quis ir à Terra Santa. Estou muito cansada, Rosa. Jerusalém é

como quando adormecia ao colo da minha mãe.

— Pois é um desejo que será concretizado. — Quê?

— Vamos a Jerusalém!

— É o meu maior desejo. Foi uma rifa?

— Foi.

— Foi um milagre.