Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 6 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 5

O professor Borja é um homem com mais de setenta anos. O seu passado prova-o. Tem vivido com toda a sua ciência, pois é um homem cheio dela. Usa barbas muito grandes e óculos de massa, a imitar tartaruga, muito graduados, por onde os olhos tentam espreitar. Tem as pestanas grandes e sonha com peixes na escuridão, usa fatos de flanela e uma pulseira de prata que, em vez de ter o seu nome gravado, tem uma frase que diz “à noite também”. Escreveu e publicou, na sua juventude, um grande insucesso de divulgação científica misturado com tratado político-social e qualquer coisa de particularmente místico, mas que Borja considera apenas pura ciência. Titulado com pompa Uma perspectiva antidarwiniana da evolução do homem: do macaco às amibas que vemos por aí, acrescido do subtítulo “A origem dos daquela espécie”. Não vendeu nada, mas o professor ainda hoje considera esse insucesso uma enorme injustiça. Gostaria, e acharia lógico, que as suas teses se tornassem provérbios, fórmulas químicas da sabedoria popular. Além desse livro, publicou também Apologia das minhocas e Jesus Cristo bebia cerveja.

O professor Borja, remetido ao quarto escuro da sua existência (meio-

inexistência), pena na solidão da razão — o último lugar deserto da terra —, com a qual mistura demasiada emoção. Passeia de manhã com as mãos atrás das costas, calçada abaixo, calçada acima. Pensa na Lei da Gravidade e em como as coisas caem tão eficientemente; pensa no Princípio da Incerteza de Heisenberg; pensa na Teoria das Cordas e por vezes no cravo de Bach. Gosta de música, que é a mesma coisa que ouvir geometria.

 

Borja entra na sua casa alugada, um espaço de homem solitário, e, extenuado, abre caminho através da ciência que impregna o ar denso. Já mais rarefeito, mas ainda em estado sólido, senta-se na sua poltrona, pousa a lata que carrega consigo, abre um livro como quem abre um vinho e ouve um bocadinho da aritmética de um compositor qualquer, alemão ou francês ou russo. Aos seus pés está uma lata pousada em cima do tapete. É a arma mais poderosa do mundo e o professor treme ao olhar para ela. Mas a sua missão está cumprida.