Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 17 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 16

Rosa desce a rua com uma música que não se ouve, das que apenas soam dentro das nossas cabeças. Leva uma mala a tiracolo e uma saia por cima dos joelhos, verde e preta. Tem um andar decidido e coordena os seus passos com a música popular que anda pela sua cabeça. Um homem vira-se depois de ela passar, e Rosa não precisa de se voltar para saber isso. Dois pombos afastam-se do seu caminho, apesar de Rosa ter abrandado ligeiramente. Para junto a uma florista e fica uns minutos a ver as flores, as gotas com que as borrifam para lhes dar um ar fresco, os cheiros entrelaçados uns nos outros como se fossem apenas uma flor, e a tentar adivinhar que nome do campo se esconde debaixo dos nomes latinos das etiquetas. Sente vontade de levar uns ramos para casa, encher a casa de flores, mas não tem dinheiro para isso. As flores do campo são baratas, as das lojas são excêntricas, caras. Mas menos felizes, pois vivem em vasos. Mesmo não comprando nada, não consegue evitar, indecisa, mexer na carteira. Tem lá dentro um lenço que pertence à sua farda de empregada.

Rosa vive na casa de Santos & Santos durante a semana, dividindo o espaço

com outra rapariga da região, seis anos mais velha. Matilde passa horas em frente ao espelho, de manhã, enquanto Rosa dormita. Discutem muito, por motivos diversos, por coisas grandes e por coisas pequenas. Por causa de horários, por causa da casa de banho ocupada, por causa de espelhos cheios de vaidade — pois é isso que os espelhos acumulam na sua superfície. Quando o espaço comum é demasiado pequeno, surgem inúmeros problemas. Numa sociedade, se houver espaço, nunca há conflito. Num quarto de empregada, junto à cozinha, não pode haver outra coisa.

Matilde passa a vida nervosa, por dentro e por fora, sonhando com um

casamento que a livre da vida que leva, do limpar do chão e dos móveis e das roupas, e são esses os conselhos que dá a Rosa, que concorda a maior parte das vezes. Mas mesmo assim, concordando, acabam sempre a discutir e a insultarem-se. Por vezes ficam dias sem se falar, senão sobre as coisas elementares em que é mesmo preciso comunicar, como por exemplo: “O Sr. Damas vem hoje aqui buscar uma encomenda”; ou “É preciso levar um chá à patroa”. Passados dias, voltam a fazer as pazes, naturalmente, muitas vezes apenas por estarem a ver o mesmo programa de televisão e a rirem-se ao mesmo tempo ou a comentar algo que sentem impossível não partilhar.

Matilde envia todo o dinheiro que ganha para a família. Tem um pai cego que

acha que vê bem e se recusa a considerar a hipótese da sua condição factual. Vive há anos numa casa de banho e dorme na banheira. Tem os olhos com o branco amarelado, completamente gastos, enferrujados e secos pelas dores da vida e da coluna distorcida. Teima em não sair da casa de banho dizendo que é por uma questão de higiene, mas a verdade é que a falta de visão associada a ter de o admitir o impedem de sair. Levam-lhe comida e, felizmente, já está no lugar certo para as necessidades mais básicas. Matilde, além de um pai teimosamente não cego, tem uma filha nascida muito longe de um casamento, para lá daquilo que é socialmente conveniente. Uma tia trata de ambos, do pai que já não vê, mas que, do alto da retrete, não o admite, e da filha que não teve pai.

Por vezes, Rosa põe-se a olhar para ela, a pensar naquela vida e a misturá-la

com a sua. Vai deixando que os seus pensamentos fluam enquanto a outra conta as notas que ganhou durante o mês anterior, e as embrulha em papel-manteiga e as ata com um cordel para enviar à tia que alimenta o pai na casa de banho e a filha sem pai e quase sem mãe.

A Matilde é como Nossa Senhora, pensa Rosa, pois também foi mãe sem haver

um pai.

 

Rosa serve um chá à senhora Santos & Santos. Pousa um prato de bolinhos com creme em cima da mesa. A mulher observa-a e faz-lhe reparos, em especial aos gestos, ao modo como Rosa se mexe. Diz-lhe ainda que tem os tornozelos muito grossos e que deveria tratar do buço, que na cidade não se usam pelos do campo. A senhora Santos & Santos tem umas sobrancelhas finas, quase desaparecidas, e o cabelo solidamente penteado, e gosta de ouvir música às escondidas, como se fosse um pecado. Retira desses momentos um prazer verdadeiro, que poucas pessoas são capazes de sentir.

— Senta-te aqui — diz, batendo com a mão no sofá onde está sentada. Rosa

obedece, meio hesitante e corada. — Não gosto nada de ti.