Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 30 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 29

A dentadura dentro do copo de água mostra o trabalho da morte, como ele é contínuo e não algo que acontece de repente. Os dentes já morreram todos, diz o copo de água com um sorriso lá dentro. Os cabelos morreram e ficaram brancos, as memórias foram engolidas. E aquela boca ri-se dentro de água, dentro do copo, mesmo ao lado da cama. E outras vezes ri-se dentro da nossa própria boca, e há nisso uma negra ironia.

Antónia está estendida na cama, a dormir. Há um gato selvagem que lhe

aparece nos sonhos e urina nos cantos para afastar os outros sonhos. E há um corvo que vem todas as noites morrer de velhice num ramo de marmeleiro. Mas antes de morrer sonha com sapatos e com nuvens, e entre uns e outros há uma rapariga que não sabe o que fazer com a vida e tem sobrancelhas grossas e o cabelo preto como o esquecimento.

Por vezes, Antónia está parada, por vezes está lúcida, e, por vezes, está cheia

de mortos dentro dela. São todos os que lhe morreram: o filho João Lucas Marcos Mateus, o marido, os pais, os avós, os irmãos — que eram seis e morreram de tuberculose e de pneumonia e de escarlatina e de fome —, os tios, as amigas de infância e duas vizinhas. O seu filho é o mais próximo, o que está mais dentro. Para Antónia, ele nunca cresceu e vê-o sempre criança. Nas suas memórias, João Lucas ficou atrasado no tempo, nunca se casou, nunca chegou a andar em rixas e nunca foi tolhido por um trator. É assim que ele lhe aparece, e ela dá-lhe conselhos e dá-lhe beijos desajeitados na testa: quando cresceres vais para Lisboa, que o Alentejo é um cemitério. Tenta agarrar-lhe a cara, apertar-lhe as bochechas, mas as mãos são máquinas enferrujadas e custam a sair do colo ou de dentro do avental.

Mesmo quando lhe falta lucidez, aparecem-lhe orações na boca, como soluços,

automáticas e vazias. Envolvem-lhe a boca num constante bichanar, como se chamasse a gineta para lhe fazer umas festas. Deus enche-lhe a boca e fica-lhe agarrado aos lábios, aos dentes postiços, à garganta, está sempre tudo cheio de rezas. Os dedos já quase não se movem pelas contas do rosário, mas a sua alma está em permanente oração, é a sua maneira de respirar. Através dos olhos baços, vê a neta e comove-se, porque está feita uma mulher. É muito bonita, pensa, e vai ser feliz. Não é nada fácil ser feliz. O Gil Fazeres, que era muito alto e estava sempre a bater com a cabeça nas lâmpadas e a puxar a pele da maçã de adão, ria-se muito e fazia rir toda a gente. Um dia, ficou doente da cabeça e já não sabia fazer contas de somar e os médicos disseram que ele se ria porque estava doente, porque era muito infeliz.

Por vezes, Rosa aproxima-se dela pelo meio das orações, e ouve o nome do pai.

É Antónia que o chama. Pode ser que não esteja longe, pensa a neta, talvez ele a ouça, talvez a morte seja mesmo aqui perto, mesmo ao nosso lado, como um vizinho. Ou pode ser que esteja dentro da minha avó, é possível que a morte dos outros aconteça dentro de nós e que ao envelhecermos nos vamos transformando em cemitérios.

Antónia olha para a neta e quer passar-lhe a mão pelos cabelos, mas tem o

corpo todo enferrujado e da sua boca saem apenas pais-nossos e salve-rainhas, em vez do nome de Rosa, que era o que gostaria de pronunciar naquele momento. As rezas despontam-lhe espontaneamente dos lábios, tal como os cabelos continuam a crescer depois de morrermos.