Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 48 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 49

A semana que sucedeu a oferta do anel foi de grande intensidade. Houve um ou outro lapso que Freud explicaria com facilidade: em certos momentos, o professor chamou Margarida a Rosa, confundiu os nomes, chamou pelo nome da filha. Felizmente, a idade desculpa muita coisa. As pessoas creem, não sem juízo, que a idade leva a memória tal como leva a capacidade para sintonizar a televisão. Em parte, há razão em tal pressuposto, mas apenas porque se espera que a memória se converta em palavras ou ações. Um homem de certa idade já não tem em seu poder o mesmo vocabulário, mas não perdeu as memórias. As memórias são as cinzas das palavras, são mais pesadas do que os pensamentos e acabam por se deixar cair pelo corpo adentro, cinzeiro abaixo. As memórias devem ser procuradas, não na cabeça encanecida, mas no corpo. As memórias enraízam-se nos ossos, na pele, nas rugas. Se um velho abrir as rugas que o tempo escava nas peles mais antigas, lá dentro há muitas histórias, basta olhar para a mudez do corpo e ler as linhas que este desenhou com os dias e as horas. São histórias desprovidas de palavras, por isso tendemos a menoscabá-las. A pequena Margarida, que morreu quando tinha cinco anos, nem mais nem menos, mostrava a sua vida com a mão aberta. Esticava os dedinhos e ali estava a sua memória mais exata, o mapa da sua mão cheia de riscos. Uma mão sem palavras. O professor Borja, que já cumprira mais de setenta anos, podia exibir o seu planisfério de memórias, o seu corpo nu era uma grande palma da mão, estava cheio de riscos.

 

O professor e Rosa encontram-se várias vezes em cima do colchão, em cima do sofá, em cima da mesa, no chão. A velhice dele esfrega o seu tempo contra Rosa, que ri e grita. Borja deita-a no sofá da sala enquanto a empurra com beijos vorazes. Ela anda feliz e tem um anel no dedo, sente-se relevante, sente-se uma mulher completa, que é amada por um sábio que parece Moisés, sente-se verdadeiramente compreendida, pois um homem com aquelas barbas todas não pode estar errado em relação ao objeto do seu amor. Se a própria sabedoria a escolhe, é porque há alguma sabedoria nela. Nenhum sábio se enamoraria da estupidez; pelo contrário, entregaria toda a sua paixão à erudição, a tudo o que é inteligente, aos livros... No fundo, a si, que, apesar de ser do campo, de ser pobre e pouco educada, revela sageza suficiente para ser admirada como uma obra de arte, como um excelente livro. E tal só pode ser avaliado por alguém com conhecimentos para isso. Um pastor como Ari não pode ser capaz de reconhecer certas coisas que um erudito, naturalmente, reconhece. Ari tem capacidade para julgar o seu corpo, mas o professor Borja sabe avaliar a sua alma, e, por consequência, entregar-se e transformar um amor espiritual num ato carnal.

Com Celeste tudo fora diferente, diz o professor a Rosa: — A matéria é densa porque são hábitos. Eu e a Celeste vivíamos deles. Nós os

dois, densos como duas pedras a boiar num apartamento, éramos apenas matéria, desprovida de vida, de espírito, vivíamos de rotinas mecânicas. A matéria é fossilizada pelo hábito, cristaliza ao arrefecer. Tudo organizado. Basta olhar para a geografia, como é organizada em certas latitudes, como se dá bem com o frio. Quando o calor é muito, nasce a confusão, a alegria e o Carnaval brasileiro. O universo, ao expandir-se, arrefece. Está continuamente a arrefecer, raios partam o universo. Como eu e a Celeste durante o nosso casamento e até ela comer a nossa farmácia. Conosco, Rosa, é completamente diferente. Eu e a Celeste afastávamo-nos, expandíamo-nos, enquanto nós, Rosa, nos contraímos numa bolinha de luz. Porque o hábito faz a vida endurecer como a côdea do pão.