Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 67 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 68

A noite está calma, deitada pelo chão, e é fácil chegar ao muro sem ser visto. O pastor Ari contorna-o, vê um carro da guarda estacionado, evita-o e trepa o portão. Do outro lado ouve os cães a ladrar, mas sabe que estão presos. Caminha até à casa e tenta abrir uma janela. Tenta uma segunda e consegue uma terceira. Os quartos são no andar de cima, por isso Ari sobe as escadas, silenciosamente, com os seus pés minúsculos. Sabe exatamente em que quarto está o professor. Quando estava lá fora, viu a luz por cima do muro, a silhueta meditabunda e as barbas infinitas. O destino não poderia ser mais benevolente consigo, tudo lhe parece fácil.

O corredor da casa da inglesa tem uma passadeira verde e uma escada ao

fundo.

Junto ao muro da casa da inglesa está um carro parado, da guarda. Lá dentro

está o sargento Oliveira, com o nome que lhe assenta como uma árvore, e o caseiro Rato. Há um nevoeiro incompreensível, denso como ódio, e o muro continua branco.

— Tens a certeza de que era hoje? — pergunta o caseiro Rato. — A certeza absoluta. O Alípio bufou-se por todos os lados. O gajo vai pintar o

muro esta noite.

O sargento tinha, naquela tarde, agarrado Alípio pelos colarinhos. Estamos na

Páscoa, disse ele, tem de haver um Judas. Vais ser tu. Alípio disse que não tinha medo dele e o sargento agarrou-o pela garganta e levantou-o no ar. Alípio ficou vermelho, com as pernas a mexerem-se freneticamente, a cara quase a rebentar. Afinal, tinha medo dele. O sargento perguntou-lhe o que é que ia pintar com aquela lata de tinta e Alípio disse que era para o professor.

— Isso sei eu — disse o sargento e deixou-o cair no chão. — O que eu quero

saber é quando é que ele vai pintar.

— Hoje à noite — disse Alípio sem hesitar. — Hoje à noite. — Muito bem. Deves fazer tudo o que combinaste com ele e se, por acaso, isto

correr mal, vou achar que me traíste a mim em vez de trair o outro. Compreendes?

— Vai tudo correr bem, vai tudo correr bem. No entanto, visto dali do carro, o professor continua no quarto, a andar de um

lado para o outro, sem se decidir a pintar o muro. O caseiro está impaciente, o sargento também, mas tenta disfarçar.

— Está tudo controlado — diz. — Vamos apanhá-lo, é preciso paciência. O pastor bate à porta do quarto do professor e aparece-lhe um homem de

barbas. Ari tem um arame na mão para estrangular o professor. Quando vê aquele homem à sua frente, sente os joelhos a tremer e a vacilar. Larga o arame e Alípio leva-o para dentro do quarto. Fá-lo sentar-se, abre o frigobar e tira uma garrafinha de rum que despeja pela boca do pastor.

Lá de fora, o sargento vê uma visita, não compreende o que se passa, mas quer

manter uma certa postura junto do caseiro, por isso diz-lhe:

— É normal. Aquele há-de sair e depois apanhamo-lo. O pastor está inconsolável.

— Onde está o professor? — pergunta, quase a chorar. Alípio encolhe os ombros.

— Deve estar hospedado noutro quarto, esta casa é um labirinto. Ari faz que sim com a cabeça, o mundo é um labirinto.