Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 68 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 69

Bate na porta três vezes. Rosa abre e vê o professor. Ele entra, está histérico. Diz que tem de sair.

— Onde vai, professor?

— Vou escrever na parede do quarto dela, da inglesa. Tenho vivido à margem

dessa possibilidade, mas agora estou aqui ao lado. Fi-la adormecer com os comprimidos do veterinário e vou entrar no quarto dela e pintar a tinta preta, sobre a parede branca, a verdade. Mesmo no seio do patronato, no coração de tudo o que está errado na sociedade: os ricos bebem chás importados do Oriente enquanto outros não têm um rabo de pão para molhar na água temperada com azeite.

— Então não vai escrever no muro?

— No muro? Não. Vou ao coração das coisas. — Vai pintar na parede do quarto da inglesa? — Isso.

Rosa sorri e o professor canta-lhe:

— “Se eu morrer nesta luta, enterra-me à sombra de uma flor!” — E o que vai escrever?

— Versos de Diógenes de Oenoanda, é claro. — Posso pedir um favor?

— Faço. Tudo o que pedires, Rosa, tudo.

— Pinta também a última frase do meu livro favorito, A morte não ouve o

pianista.

— Qual é a frase?

— “Morro por amor, sem isso não vale a pena estar vivo. A minha vida foi feita

para se entranhar na tua, como uma faca espetada no coração.”

O professor repete aquela frase até a decorar. Três, quatro vezes. Rosa vai

corrigindo, vai repetindo com ele: como uma faca espetada no coração.

O professor sai, com as suas barbas intensas, com a lata de tinta na mão

esquerda, fechando com cuidado a porta atrás de si. Olha para um lado e para o outro e não vê ninguém. Sorri para dentro e dirige-se para o quarto de Miss Whittemore. Com calma, abre a porta e entra. O espetáculo é impressionante: o quarto imenso, com mais de vinte metros de comprimento, tem uma ossada de baleia a servir de dossel da cama, um leito com cerca de três metros. O professor debruça-se sobre Miss Whittemore para ter a certeza de que ela dorme, depois dirige-se para a parede branca de topo e abre a lata de tinta. Molha o pincel e começa a pintar a parede com versos de Diógenes de Oenoanda, ou seja, a verdade. Enquanto está de costas para a porta, concentrado na sua missão clássica, de grego antigo, Rosa entra no quarto. Traz uma faca de cozinha na mão.