Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 56 de 73

Páginas do PDF

Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 57

A principal ocupação de Fartaria é vigiar o adro da igreja e impedir os bêbedos de mijarem por ali. Passa a maior parte do seu tempo no largo, de um lado para o outro, a vigiar. O padre Teves gosta muito dele, é um homem discreto que sabe o que não deve dizer e o que não deve ouvir.

O padre cumprimenta-o e entra para a sacristia. Tem, na secretária, uma

fotografia a preto e branco dos seus pais. Nunca conheceu a mãe, que morreu durante o parto, mas, porque em criança a imaginou de todas as maneiras que foi capaz, acabou por criar uma espécie de memória de uma vida que nunca chegou a acontecer. O seu pai morreu com menos um pulmão, tinha Teves vinte e dois anos. Um dia — uma noite, para ser exato —, foi assaltado: a carteira ou a vida. O sr. Teves, que tinha aprendido a lutar nas rotas comerciais do Oriente e Mares do Sul, por onde andara embarcado, sabia artes marciais, das mais violentas, das menos zen, e defendeu-se atacando (a melhor defesa é a contradição). O assaltante recuou quando o viu exibir os cutelos das mãos e um kiai seguido de um mawashi geri dirigido às suas costelas mais desprotegidas e, por um instante, hesitou antes de disparar, acertando-lhe num bofe, no direito. O ladrão levou-lhe a carteira enquanto o sr. Teves era levado para o hospital. Lá chegado, disseram-lhe: o pulmão ou a vida. Desta vez não fez uso das suas artes violentas, as de Marte — apesar de ter tentado um oi tsuki sem efeitos práticos (o médico julgou que era um tique nervoso) —, e entregou-se nas mãos do cirurgião que lhe iria roubar o pulmão esburacado. Não lhe adiantaram de nada as artes de Esculápio, as artes médicas, pois a morte foi um larápio mais célere: e desta vez, desta derradeira vez, não lhe foi dada opção. Não há melhor ladrão do que a morte.

O pai era muito pobre e não havia nada no quarto onde vivia que valesse a pena

guardar. Exceto o cinto, o tal que servira — debalde — para dissuadir o filho de se tornar sacerdote, para lhe corrigir tal defeito de caráter, essa nefanda inclinação para a divindade. O mesmo cinto que se ouvia estalar quando o padre Teves rezava ou falava do púlpito.

Teves já não vivia com o pai quando este faleceu depois de tantos roubos

seguidos: primeiro a carteira, depois o pulmão, depois a vida. Mas sofreu como sofrem todos os filhos. Vivia no seminário, em Lisboa, mas a cidade dava-lhe alguma falta de inspiração para discursar, evangelizar, comover o próximo para a causa mais nobre, pois o jovem Teves não se contentava com a teologia e incumbia-se a si mesmo de uma fabulosa missão apostólica e evangélica, digna de um Inácio de Loyola, de um Francisco Xavier ou mesmo de um Paulo de Tarso. Parava nos miradouros com fome de ideias, de inspiração que, cria, lhe cairia espontânea alma adentro só de olhar o rio a molhar-se no mar. Olhava a paisagem e esperava pelas palavras que andam pelo ar como as bactérias. A maior parte das vezes não apanhava doença nenhuma, quanto mais uma aliteração. Por isso voltava a casa com uma frustração que o magoava mais do que o cinto do pai, que lhe cavara sulcos profundos no traseiro da alma. Contudo, elaborava grandes discursos, sermões que julgava engenhosos. Faltava-lhe, tantas vezes, o gênio, mas também lhe faltava o gênio para o admitir. São dois gênios que faltam quase sempre em conjunto. Mas tudo isso se compensava com a sua intensidade e determinação. Alma, como dizem os poetas.

 

O pastor Ari bate à porta e pede licença para entrar. O padre manda-o sentar-se.

— Preciso de saber uma coisa, padre.

— O que é?

— Sei que matar é um grande pecado, mas imagine um pecador, um filho da

puta...

— Não quero aqui essa linguagem.

— Se um homem continua a pecar, não será um dever cristão acabar com isso?

Não podemos deixar as porcarias acontecerem e fechar os olhos, pois não?

— Sim, um pecador que compromete a sua alma poderá ser castigado pela

eternidade. Perguntas se não será um dever cristão, já que o pecador não se arrepende, acabar com a vida dele e, assim, impedir que continue a pecar e comprometa a alma eterna? Nada mais errado e até já se pensou assim, em tempos. Mas o século é outro e a misericórdia é um caminho mais saudável. Matar é um pecado muito grave, além de ser um crime igualmente grave. Seja qual for a circunstância. Na História da Igreja cometeram-se muitas vezes erros de raciocínio como esse. Estás a pensar matar alguém?

— Mas não haverá uma atenuante para um caso destes? Ari não consegue pensar em mais nada senão em Rosa. Não consegue comer e

anda nervoso. O padre levanta-se e olha para ele. É um jovem e não vê as coisas para lá das coisas.

— Eu costumo passear junto ao rio, Ari. A Rosa tem atributos incomparáveis,

absolutamente divinos, e pode parecer-te impossível desistir dessa perfeição, mas somos seres racionais e, mais do que isso, cristãos.

— Mas há aquele velho...

— Também me preocupa, é um homem horrível que não crê em Deus. Sabes do

plano grotesco que ele pensa levar a cabo com a ajuda da Rosa? De fingir que levam a Antónia para Jerusalém?

— O velho anda a dormir com a Rosa.

— De certeza?

— De certeza absoluta.

— Compreendo. Até eu fico com vontade de o matar. Valha-me Deus, o que

digo? Nós nascemos para perdoar e é isso que deve ser a nossa natureza. Eu preferia ser chicoteado nas nádegas a pecar dessa maneira.