Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 30
O professor Borja vai aparecendo no monte com alguma frequência. Leva sempre bolos e já nem bate à porta. Rosa está sentada num banco, com as mãos postas em oração, quando o vê entrar. O professor percebe que ela está a chorar, então aproxima-se, põe-se de cócoras e agarra-lhe as mãos.
Antónia está sentada junto dela, num momento de perfeita letargia, com um fio
de baba a escorrer-lhe pelo queixo. O professor passa a mão em frente dos olhos dela, para ver se há alguma reação, mas ela não pestaneja, está com os seus mortos.
— Tudo o que ela quer é ir à Terra Santa — chora Rosa. — É só isso que ela
quer. Ver Jerusalém e depois morrer.
— É difícil. Como é que a fazemos chegar lá? — É impossível.
— O impossível é uma merda.
— Pois é.
— Mesmo que tivéssemos dinheiro para a viagem, ela não aguentava. — Pois não. Mesmo que tivéssemos dinheiro. — O melhor é esquecer Jerusalém.
— Sim, é impossível. Coitada da minha avó. O professor encosta a mão direita à cabeça e reflete, olhando para o teto: — Mas, tal como é possível não pisar a merda, é possível dar a volta ao
impossível. O que há a fazer é levá-la a Jerusalém.
— Impossível. Nós somos pobres.
— Claro, como quase toda a gente.
— Trabalhamos, mas continuamos na miséria. — Evidentemente. Se o trabalho desse dinheiro, os pobres seriam ricos. Mas não
é disso que falo.
— Então?
— Se nós não conseguimos chegar a Jerusalém, temos de fazer com que
Jerusalém venha até nós.
— Não percebo nada. É como Maomé e a montanha? — É isso e é muito simples: temos de fingir que levamos a velha até Israel. — Israel?
— É onde fica Jerusalém.
— E como é que fazemos isso?
— Espaço não falta. O que temos de fazer, ouça com atenção, é o seguinte: a
aldeia que a inglesa comprou terá de ser disfarçada de cidade sagrada. Obrigamos as pessoas a usar camisa branca e fatos pretos, barbas postiças, chapéus, e aqueles caracolinhos que os judeus usam. A sua avó vai julgar que está na cidade sagrada.
— Mas não se vai de avião?
— Vai. O que nós vamos fazer é levá-la até ao Avião. — O bar?
— Sim. Tem um excelente show de strip com Miss Stela. Quando chegarmos ao
Avião, damos um sedativo à velha, alguma coisa para dormir, de modo a que não se aperceba da impossibilidade de aquele bar levantar voo. Depois, tiramo-la do Avião e levamo-la para a aldeia, que estará disfarçada de Jerusalém.
— Será possível?
— Claro.
— E como é que explico à minha avó que tenho dinheiro para a levar à Terra
Santa?
— Não faço ideia. Mas hei-de pensar numa solução. — E a inglesa concordará?
— Concordará.
O professor olha para Antónia, que tem alguns cabelos caídos junto aos olhos. A
sua respiração por vezes é silenciosa como um mocho a voar, outras vezes é ruidosa como um trator a lavrar a terra.
— É verdade que o seu pai morreu debaixo de uma máquina? — Não.
— Prefere que não fale nisso?
— Tanto faz. Pendurou-se numa figueira.
Rosa lembra-se bem. Coça a cabeça enquanto olha para a memória que tem dos
últimos dias do pai: João Lucas Marcos Mateus foi colhido por um trator enquanto apanhava medas de feno. O acidente levou-lhe uma perna e toda a virilidade. Foi definhando, porque não era homem de ficar sem trabalhar e sem andar a provocar toda a gente, e a lutar, e a beber. Pegou numa corda e pendurou-se numa figueira. Foi o mais estranho fruto daquela árvore.
— Julgava que tinha sido um acidente.
— Enforcou-se.
O professor levanta-se, ri e bate palmas:
— Já sei. Compramos uma rifa aos bombeiros e nessa rifa ganha-se uma
viagem a Jerusalém.
— Não tenho dinheiro para rifas.
— Eu ofereço.
— Está bem.
— O Alentejo é um cemitério — diz Antónia. — Tens de ir para Lisboa.