Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 72
Rosa come um rabo de pão velho com um fio de azeite e bebe café, depois vai a correr para a rua para vomitar. Agarra-se com uma mão à parede enquanto o café se dirige para o chão, salpicando a parede branca. Entra em casa e limpa a boca ao pano da cozinha. A avó está deitada na cama, ainda dorme. Dantes acordava muito cedo, mas à medida que foi perdendo algumas faculdades foi acordando cada vez mais tarde.
Rosa sai em direção à vila, uma hora e meia a pé, e para no largo da igreja.
Mete-se por uma rua estreita e para em frente de uma montra com roupas de bebê. Não pode comprar nada, porque não tem dinheiro e porque se comprar roupa para bebê toda a gente ficará a saber que está grávida. Limita-se a imaginar que entra na loja, que passa as mãos e os olhos por todas aquelas roupinhas e decide comprar uns sapatinhos de lã. Imagina comprar uns azuis, porque tem a certeza de que é um rapaz. Já fez o teste com uma agulha pendurada numa linha a servir de pêndulo. Tinha rodado para a direita, era rapaz de certeza absoluta, as agulhas não rodam para a esquerda quando se trata de meninas. Fora a sua prima Milene (que é uma hipócrita) que lhe ensinara, há alguns anos, essa ciência e outras magias.
Rosa caminha até à periferia da vila e sobe um morro. O céu é muito grande
em lugares como aquele. Rosa começa a descer para o rio. Lembra-se de todas as vezes em que se encontrou com o pastor e do cheiro das margaridas e das macelas e das camomilas. Tira uma pedrinha do bolso e põe-na na boca. Vêm-lhe duas ou três lágrimas aos olhos enquanto sai do caminho de terra batida. Segue pela encosta, sobe um morro e apanha arruda, um molho dela.
Em casa, depois de beber a infusão, sente uma agonia difícil de suportar. O
sangue escorre-lhe entre as pernas e ela deixa-se estar assim, dobrada sobre si mesma, agarrada à barriga. A morte procura sempre o lugar mais baixo, como a água, como as árvores que caem, como os caixões, como o sangue, como o futuro que escorre pelas pernas abaixo até aos pés, até ao chão, até.
E assim é destruída a bolinha genética do professor Borja, que agora é apenas
um punhado de teorias científicas que ressuscitarão graças ao crime cometido por Rosa. Não há carne nenhuma envolvida.
Rosa lembra-se da inglesa a discutir com Borja: — O nascimento é a morte da vida intrauterina — dizia Miss Whittemore. —
Também esta vida é um útero para a que virá.
— Pelo contrário — rebatia o professor —, não há nada depois disto. A
sobrevivência física, chamemos-lhe assim, consegue-se através dos filhos. Somos como os frutos, temos esta carne toda, esta polpa, mas é só para carregar as sementes.
“As pessoas não morrem, emigram”, disse Harold Estefania ao apontar a arma a
um bandido. E, de certo modo, será isso que ela fará. Emigrará para Lisboa porque, como diz a avó, o Alentejo é um cemitério.
Rosa olha para Antónia, olha para ela pela última vez. Vai abandoná-la, vai para
Lisboa. Deixa um bilhete em casa de Amélia. Espera que ela trate da avó ou a ponha num lar. Tanto faz. Sente-se vazia, como se tivesse perdido uma série de vidas, algumas fora dela, uma dentro dela.
Deixar a avó para conseguir ter uma vida é como matar o professor para que
este se torne cinzas e fogo, como a lenha. A morte é a combustão. O corpo fica todo torcido a misturar-se na terra e nos vermes, enquanto o espírito, o fogo, caminha para os tops das livrarias. Deixar a avó a morrer é o sacrifício necessário para conseguir viver. Do mesmo modo que levá-la a Jerusalém havia sido o sacrifício necessário para fazê-la feliz. Sente-se outra vez uma parteira: abandona a sua bolinha genética, a única ligação biológica que ainda tem, em prol de uma vida robusta na capital, em Lisboa, aquele lugar que Antónia identifica com a vida — enquanto o campo é a morte. Do abandono da sua avó, sabe Rosa instintivamente, como um veado a morrer, nascerá uma nova vida, algo que lhe tem estado vedado.
A avó tem as rugas a comer-lhe o corpo como predadores, tem a cabeça
pendurada, e os seus momentos de lucidez são cada vez mais raros. Troca os nomes das pessoas que vê, troca os nomes das coisas, já não distingue o som do azinho a queimar na lareira do som da lenha de oliveira, já não se lembra das histórias que o fogo obriga a contar, já não consegue pentear o cabelo ou levar a comida à boca. “Fica aqui”, escreveu Rosa no bilhete que deixou à sua vizinha Amélia, “a minha avó”. Foi só isso. Poderia ter escrito as palavras de Harold Estefania: “As pessoas não morrem, emigram. Desaparecem da nossa vista: umas para dentro de um caixão, outras para lugares distantes. No fundo, vão todas para lugares distantes. E, ao ouvir isto, o bandido perguntou: Vais disparar sobre um homem indefeso? O meu revólver não tem balas. E então Harold Estefania disparou dois tiros, rebentou-lhe o tórax, e disse: Toma as tuas balas.”