Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 60 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 61

Rosa e o professor têm de esperar que escureça para tirarem Antónia do Avião. Chegam os primeiros clientes, o bar abre às seis. Uma hora depois, já há gente demasiado bêbeda. Antónia continua a dormir enquanto Miss Stela faz o seu primeiro show.

— Vocês adoram ver-me despida de hospedeira — diz para a plateia, composta

por um ganadeiro, um comerciante de enchidos, um motorista e dois empreiteiros.

O professor está em pé, junto ao balcão, a beber cerveja com abafado. José

Manso, comerciante dos melhores chouriços de carne e linguiça alentejana, está na mesa mesmo ao lado de Antónia e de Rosa. Por vezes olha para o lado, intrigado.

— Passa-se alguma coisa com a velhota?

— Está tudo bem — garante Rosa.

— Também se vai despir?

— Quem, eu?

— Sim, a menina.

— Não!

— Mas olhe que deve ter jeito.

Rosa vira-se para a frente, puxa a saia com as duas mãos para tapar os

joelhos, um gesto que diz que não quer continuar a conversa. Manso insiste que ela teria jeito, mas depressa volta a concentrar-se em Miss Stela, que está nesse momento de gatas a dar palmadas no próprio rabo. Os homens aplaudem e ela sai pela porta ao lado do balcão, a correr, com os braços abertos como se fosse um avião. A pausa é propícia a mais umas rodadas. Lurdes, a empregada de Miss Stela, sai do balcão com um tabuleiro cheio de whiskys e vodkas e vinho. Lurdes é nova, tem pernas fininhas, braços magros e quase não tem queixo. É, como defesa, demasiado antipática para os clientes que, obviamente, não se sentem minimamente intimidados e que, sempre que podem, lhe passam as mãos pelo corpo e soltam umas piadas sobre a sua falta de peitos. A música está demasiado alta e toda a gente fala aos berros. Miss Stela surge da porta por onde saiu a correr de braços abertos, vestida com umas calças de ganga e um casaco cor-de-rosa sem mais nada por baixo. Vai para trás do balcão e ajuda Lurdes a aviar os pedidos.

O professor conversa animadamente com um carpinteiro chamado Arménio. — És um saudosista — diz-lhe.

— Dantes havia o Jacinto, que ressuscitava os mortos. E o ruivo, que perdeu

tudo a jogar à lerpa. Agora é só engenheiros. Dantes, se não conseguias matar um sapo, ele escondia-se debaixo da tua cama e assim definhavas e morrias. Agora são espécies não sei quê e não se lhes pode tocar. O tabaco enrijecia o peito e dava-nos voz para lutarmos aos berros. Foi-se tudo, não foi? Gritávamos o nome de Deus enquanto sangrávamos do nariz e dos lábios e éramos mesmo Deus, ou não éramos? Ainda há dez anos era tudo diferente. Lembras-te do Luís da barba de bode? Era teso como o Inverno e quando se irritava não ia votar noutro partido, como se faz agora. Partia era a cara do patrão e depois ia às putas. Tenho saudades do tempo em que as bengalas não serviam só para apoiar a velhice, mas para desancar os canalhas. Agora plantam-nos os campos de oliveiras espanholas regadas gota a gota, como as mulheres finas. Dantes era sequeiro. Dizem-nos para poupar no banho e depois regam as oliveiras, que nunca foram regadas desde que Deus criou o mundo. Nós não nos podemos molhar, mas as putas das árvores podem encharcar-se como peixes. E depois temperamos os tomates com aquele azeite aguado, que é o que aquelas oliveiras dão, de tanta água que bebem. Dizem que é a competitividade. Mas um gajo quer competir em quantidade ou em qualidade? Eles que produzam mundos aguados que nós ficamos com os frutos a saber a suor e a sangue e a terra. Que se fodam todos, mais o tempo, mais o século. Lembras-te do António Samarra? Morreu com uma braçada de um eucalipto na cabeça. Hoje serram os plátanos todos os anos, não é? Têm medo das árvores, têm medo que cresçam. São bichos perigosos, as árvores. Nem se mexem, mas são perigosos. Que mundo! São as alergias dos plátanos, são os ramos dos plátanos. Acabem com a natureza que isto só nos faz é mal. É só ervas e bichos selvagens, letais como as cobras e as árvores. Os meus avós, os meus pais, a minha mulher, eu e os meus filhos comemos debaixo de um plátano gigante, brincamos debaixo de um plátano gigante, rimos debaixo de um plátano gigante... Se nos cair um tronco em cima, se nos matar a todos, é melhor do que a puta de um cancro. Foram gerações inteiras a usufruir da felicidade de estar debaixo de uma árvore. Sabes o que isso quer dizer? Que vivíamos, que gostávamos do que fazíamos, que sangrávamos dos tomates e das costas e dos ossos, que chorávamos e ríamos sem precisar de uma telenovela ou de um comediante na televisão. Era assim que vivíamos. Debaixo das árvores.

O professor concorda, mexendo a cabeça, e bebe tudo o que tem no copo. — Já é noite — interrompe Miss Stela. — Não é melhor levar a velha? — Acho que sim.

— Como é que fazem agora?

— Pomo-la no carro e esperamos que acorde. Depois levamo-la para a aldeia da

inglesa.

— E se ela acorda agora?

— Não me parece. Os comprimidos são para cavalos. — E se ela não acorda?