Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 20 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 19

Os sonhos voam como as traças e põem ovos nos móveis, nas roupas, nas ombreiras das portas, em todo o lado. E desses ovos nascem mais sonhos, que são como as traças que põem ovos em todo o lado. Rosa está adormecida na cadeira junto à lareira. A gineta está ao seu colo e, de repente, salta para o chão, pois ouve qualquer coisa. Rosa acorda e olha pela pequena janela que dá para o seu mundo todo e vê uma luz. Uma luz mesmo no meio da escuridão, a abanar-se como uma estrela a sacudir a água dos cabelos. É o pastor Ari com a sua lanterna. Aproxima-se do monte apontando a luz para todo o lado, com as calças rotas e a pensar em pardais mortos. Quando Rosa vê a luz, levanta-se e caminha para ela como uma traça, ou como fazem os sonhos, devagar e descalça, sem fazer barulho. Abre a porta com cuidado e levanta-a um pouco para que as dobradiças trabalhem com menos peso, façam menos barulho. Ari já está à sua frente e juntos caminham para a pequena barragem de um terreno vizinho. Ouvem-se rãs e, por vezes, corujas das torres. Há, no outro lado da barragem, uma casa que ardeu com duas crianças lá dentro e depois disso ficou assim, vazia de tudo o que importa. Mas ainda há, no alpendre, uma bicicleta sem rodas — também despojada de tudo o que importa — e enferrujada; e um baloiço de madeira que chia ao vento, pendurado num salgueiro morto porque as raízes estavam a entrar pelos canos da casa. E porque os homens não suportam a natureza e se ela lhes entra pela sala pegam logo num machado. Depois sobra o lamento de um baloiço vazio pendurado em madeira morta.

— Sei que andas triste... por teres de trabalhar na casa do Santos & Santos. Ari tira um embrulho do bolso direito e coça o nariz. — Trouxe isto para ti.

— O que é?

— Abre.

Rosa abre o embrulho.

— Um livro.

— É de detetives. Gostas disso, não é? Perguntei à senhora da papelaria que

livro haveria de escolher e ela respondeu-me: “De que tipo de livros é que ela gosta?” “Não sei”, disse eu. “Ela anda triste porque tem de trabalhar longe de casa, sem ver a avó.” “Do que é que ela gosta? Acho que é de cowboys e detetives.” Então a senhora foi buscar esse livro à prateleira e disse que era muito bom.

Rosa leu o título: Jasmim com sangue de ontem. — Parece bonito — diz ela, virando o livro para ler a contracapa. Mexe os lábios

enquanto lê o resumo e depois abre-o, lê uma frase, uma dedicatória do autor à sua mulher: “Lembra-te de que quando Deus fecha uma porta abre-nos um livro.”

— Vais gostar. Tem detetives.

— Obrigada, Ari.

Rosa abraça-o e os seus lábios quase se tocam, ficando os dois um pouco

envergonhados.

Sentam-se junto à água em silêncio e ficam assim algum tempo. Ari gostaria de

dizer muitas coisas e planeia grandes discursos antes de chegar ao pé de Rosa, mas depois só lhe sobra silêncio na boca. Começa a mastigar em seco, que é o seu silêncio a inundar-lhe a boca de coisa nenhuma. Parece um tique nervoso, a boca a mexer de um lado para o outro, mas são apenas discursos impronunciáveis que lhe andam pelas gengivas e pelos dentes. Ari engole em seco e torce os lábios angulosos, mas não sai som nenhum, não sai nada do que imaginou e preparou, nenhuma frase definitiva, nenhuma palavra arrebatadora.

— Amanhã trago a espingarda, que estou farto de ver lebres por aqui. Rosa continua calada.

— Aquele baloiço é esquisito. Hoje não está vento e ele chia. Devem ser os

miúdos que morreram queimados. Lembro-me do bombeiro, do Faia, da cara que ele tinha quando entrou no café do Zé Romão, com os olhos vermelhos do fumo ou das lágrimas. Bebeu até perder os sentidos e deixar de ter corpo para sentir a vida, mas não vou falar mais nisso para não te entristecer. De vez em quando venho ver a tua avó. Trago-lhe ervas, cardinhos para o feijão... Não te preocupes com ela.

Rosa sorri e acaba por contar tudo o que vive na casa do Santos & Santos: diz-

lhe que a Matilde é como Nossa Senhora e tem um pai que não sai da casa de banho, conta-lhe que a dona Clotilde, uma das empregadas da casa, gosta de filosofia e de limpar o chão, mas omite o fato de Santos & Santos se deitar na cama de Matilde. Depois, Ari acompanha-a até ao monte, com a lanterna apontada para o caminho e com a boca cheia de discursos mortos.