Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 19 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 18

Rosa gostaria de sair do serviço às seis, como faz o sol, que também larga o serviço por essa hora. Aos fins de semana, deixa a casa de Santos & Santos e vai para o monte. A avó tem momentos em que parece morta; outros em que tem dificuldade em falar e lhe saem estranhos sons da boca; e outros de inusitada lucidez.

— Chega-te aqui, Rosa.

A neta passa os fins de semana a chorar.

— Não chores. É assim a velhice, nós não prestamos para nada. Acende a

lareira, que faz frio.

Rosa levanta-se, amontoa duas pinhas, um pouco de caruma e folhas de uma

revista. A atriz loira da página dedicada à sociedade começa a arder, os peitos em chamas, as ancas a fumegar, provando a efemeridade destas coisas. Rosa recorda os tempos em que ouvia muitas histórias, contadas pelo avô, pelo pai, pela avó. Sempre com a lareira acesa, pois uma lareira queima duas coisas: lenha e histórias.

Rosa acende o lume, auxiliada pelo abanico de palhinha. Empilha dois pedaços de

azinho.

— Dantes não era cega das orelhas e ouvia tudo — diz a avó. — Ouvia a lareira

e sabia distinguir o som da oliveira do da azinheira. Porque elas queimam com sons diferentes. Gritam coisas diferentes. E andava pelos campos e sabia que havia muitos tipos de flores, umas eram apenas mudas enquanto outras eram moucas. Umas só sabiam ouvir e outras só sabiam falar. São assim as flores. É preciso conhecê-las.

Antónia, cansada, para para respirar.

— Ando aqui a morrer, a mijar-me pelas pernas abaixo, que vergonha. E nunca

cheguei a ir à Terra Santa. Viveria tudo da mesma maneira, se me perguntassem, mas quando a gente perde um filho, que Deus o tenha, só se pode confiar em Jesus e na ressurreição. O teu avô pisava as uvas para fazer vinho, não era? Quando se chega a esta idade somos umas uvas, pisadas a vida inteira. Um dia, nosso Senhor transformar-nos-á em vinho. Sofremos tanto que já só podemos ressuscitar, já não nos sobra mais nada. Gostava muito de ir à Terra Santa, Rosa. Andar pelos lugares onde Nosso Senhor andou e deixar-me morrer lá, para não ter de caminhar tanto até ao céu. Ele pegava na minha mão e levava-me, como tu me levas à missa, levava-me para o seu regaço, como uma menina pequenina, como quando era criança e adormecia ao colo da minha mãe. Foi há tantos anos, mas ainda me lembro do cheiro dela, do tecido dos vestidos, das mãos magrinhas. Cada dia que passa lembro-me mais da minha santa mãe: era muito bonita e gostava de mim. Eu adormecia ao colo dela, Rosa, a agarrar-lhe as mãos ou o peito ou a roupa. Estou muito cansada, Rosa, muito cansada... Às vezes quero mexer as mãos e não consigo... Os velhos pisados precisam de corpos novos, dos de Glória, uns corpos que não nos envergonhem quando queremos coçar a cabeça ou quando queremos comer. Uns corpos que não precisem de netos para lhes levar a colher à boca e que não se mijem pelas pernas abaixo.

Rosa pega-lhe nas mãos, que estão frias, e soluça: — Não quero voltar para aquela casa.

— O quê?

— Não quero voltar para aquela casa — repete. — Não ouço.

Rosa debruça-se, encosta a boca ao ouvido da avó, e diz mais alto: — Vou levá-la para perto do lume, que tem as mãos frias.