Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 25
O professor Borja para o carro ao lado da morte de um javali. A parte da frente está bastante destruída. Sai do carro a coxear muito ligeiramente, pois tem uma perna, a esquerda, mais comprida do que a direita. Olha para o animal tentando perceber se poderá estar vivo. Teme que, se estiver, a sua aproximação lhe seja fatal. O professor experimenta cutucá-lo com o pé. O animal não se mexe. É assim que devem comportar-se os cadáveres. Dá a volta ao carro e abre o porta-bagagens, voltando de seguida para junto do javali. Baixa-se e tenta puxá-lo pela cauda. Conclui que o bicho é demasiado pesado, por isso desiste de imediato, mas fica num dilema. Por um lado é completamente incapaz de fazer mover o animal, por outro lado, parece-lhe um desperdício imenso, uma ofensa à morte. Parece-lhe que se a morte de um animal não acabar no forno, não valeu a pena a vida. Curiosamente, nunca pensaria isso de si mesmo. Ser comido depois de ter sido atropelado não seria jamais o culminar de uma vida plena. O sol atira-se contra o chão, com toda a força, e o professor sabe que poderá demorar até aparecer alguém naquela estrada para o ajudar com o javali. Então decide deixar ali o animal, ir até à aldeia e pedir ajuda. Entra no carro, dá à chave, mas o carro não pega. O professor Borja sai a praguejar e dá duas voltas ao carro. Depois para a olhar para o capô, com as mãos na cabeça. Apercebe-se de que nem sequer sabe abrir o capô. Olha um pouco para baixo e vê algo pendurado. Deve ser o radiador, pensa, apesar de nunca ter visto um radiador, e se viu, não o saberia identificar como tal. Deve ser grave, diz para consigo. Cabrão do porco. Passa-se quase uma hora e não apareceu ninguém na estrada. O professor sente-se perdido e não sabe o que fazer. Decide pôr o chapéu e caminhar até encontrar uma casa. As searas estão amarelas, à espera da foice como velhos nos jardins, e o professor olha para a ondulação apenas interrompida por sobreiros. Uma águia voa aos círculos, antes de mergulhar sobre a sua presa, e o professor pensa: no céu, as ruas são redondas. Passados minutos, a águia voa rente à estrada, junto ao professor, com uma cobra nas patas. O anjo da Morte tem todas as caras possíveis, desde uma casca de amendoim que vai parar à traqueia até um terramoto de escala impensável, mas uma águia é um dos seus melhores rostos. A camisa do professor começa a ficar ensopada de suor. A testa pinga e o suor escorre-lhe pelas sobrancelhas, fazendo-lhe arder os olhos. Tira, com frequência, o lenço do bolso. Também tira o chapéu porque lhe faz calor na cabeça, e abana-se com ele. De seguida volta a colocá-lo. Parece-lhe ver um vulto ao longe e leva a mão à cara para fazer sombra nos olhos. Sim, alguém caminha a uns trezentos metros do lugar onde está. O professor estuga o passo, acelera, mas porque não está habituado a quaisquer esforços físicos avança meio trôpego. De vez em quando, por entre arquejos, grita e acena. Quando chega perto, percebe que são duas mulheres: uma rapariga empurra um carrinho de mão enferrujado com uma velha lá dentro.
O professor Borja olha para a rapariga. Ela tem sobrancelhas espessas como o calor da tarde e uns lábios grossos. As pernas são perfeitas, apesar dos pelos que as cobrem. O professor interroga-se: que idade terá? Parece nova, mas tem um olhar de mulher com alicerces. O professor cumprimenta as duas.
— A minha avó é mouca — diz Rosa.
— No fundo, somos todos. Só ouvimos o que nos interessa. — Sim, mas a minha avó não ouve sequer o que lhe interessa, a menos que lho gritem ao ouvido.
— OLÁ — grita o professor ao ouvido da senhora. A velha vira-se para ele e faz um gesto com o braço. Tentava acertar-lhe na
cara.
— Ouça, menina...
— Rosa.
— Menina Rosa, eu preciso de ajuda. Atropelei um javali e morreram os dois: a
besta e o carro. Nem sei se preciso mais de um mecânico ou de um talhante.
O professor tira o chapéu e abana-o junto à cara. Sua como uma chuvada de
outono, e o cheiro dos seus sovacos entontece qualquer pessoa. Também sente que os pés se queixam do couro das botas e talvez estejam a precisar de dormir todos nus ou só com meias de algodão.
— Para onde vai com a sua avó?
— O que é que isso lhe interessa?
— Talvez as possa ajudar?
Rosa ri-se.
— Não era o senhor que precisava de ajuda? Eu nunca pedi nada. — Sim, mas vejo que carrega a sua avó com dificuldade. Mas, enfim, quem é
que não tem um familiar para carregar com grande sofrimento? Tem razão, a menina Rosa. Eu sou só uma pessoa que matou um porco enorme e que não faz ideia do que fazer com isso. Moram perto?
— Logo ali, num monte que não se vê daqui da estrada. — Bom, continuo sem saber o que fazer...
— O senhor devia chamar alguém.
— Era isso que eu gostaria. Mas não encontro nenhuma maneira de o fazer. — Pode acompanhar-nos até à aldeia. A minha avó tem de lá estar antes da
missa. Ela assiste à missa há mais de cinquenta anos.
— Muito bem, acompanho-vos. Mas posso ajudar? Posso empurrar um pouco? — Não é preciso.