Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 8
A casa de Miss Whittemore é conhecida por casa de Leste, em contraponto ao campo de Oeste, que é o nome do cemitério. A casa fica realmente orientada para nascente, como uma igreja. As suas divisões são chamadas versos, como se tudo fosse um grande poema. O salão é chamado, pela inglesa, de Verso Maior, e o seu quarto de Verso Deitado, e o corredor de Verso Longo, e a copa de Verso Angular e a sala de jogo de Verso de Fumo.
À entrada da casa há um tabuleiro nepalês de cabras e tigres, um gamão da
Valáquia, um baralho árabe — de origem síria —, e outro renascentista, pintado em Bolonha no século XVI. Há armários de gim por toda a casa e louça veneziana para servir chá.
Em pequena, Miss Whittemore levava flores aos empregados. Dizia que eram do
pai ou de um outro empregado. Isso melhorava a relação entre as pessoas, mesmo quando descobriam que era tudo iniciativa da criança rica e mimada. Também bebia gim às escondidas, e embebedava-se desde os oito anos. Miss Whittemore sentia, em criança, que aquelas florinhas do campo eram capazes de atar as pessoas umas às outras, como as letras compõem palavras, e imaginou fazer isso pelo mundo todo. Depois foi percebendo que o mundo não acabava nos muros da feitoria, como sempre achara. Então, entrou numa igreja e deixou uma flor no altar: Deus que distribuísse pelos homens.
Um dia, contou essa história ao professor Borja: — Em pequena, deixava flores às criadas do meu pai com o nome de outra
criada. E a criada que recebia a flor ficava encantada e dava uma flor de volta. Punha toda a gente a dar flores a toda a gente. Era assim que eu acreditava em Deus.
— Deus não estava envolvido. Não precisamos dele para nada. — Pelo contrário, foi assim que passei a acreditar. Deus era o gesto de dar
aquelas flores. Era criança, mas percebi isso claramente. Era o gesto, professor, o gesto, e não o objeto. O gesto humano e não um sujeito castigador, enorme, barbudo e onipotente.
— Ridículo.
— O meu pai costumava usar um argumento curioso, que não perfilho mas
partilho consigo, que sei que aprecia um bom copo ao fim da tarde: não faz sentido nenhum que o mar não seja doce e potável. Fazer da maior parte do planeta uma coisa intragável é hediondo, e só Deus poderia lembrar-se disso. É a prova de que existe. Se fosse a ciência ou a razão, o que fariam? Um mar estupidamente salgado ou uma coisa que se pudesse beber ao balcão dum bar?
— Ha, ha, ha, ridículo. É um argumento de uma estupidez aterradora. A
complexidade não é fruto da razão e há um motivo para o sal no mar. É muito fácil confundir as mentes ingênuas com argumentos desses.
— Concordo, mas continuo a ter pena de que o mar não seja potável.
Ninguém diz muito alto o nome da inglesa, pois todos têm medo dela, e muitas das coisas estranhas que acontecem na região são-lhe atribuídas. Quando aparece uma cobra no Inverno, a culpa só pode ser dela. Desde que a inglesa se instalou na aldeia, aparecem asinino-homens com mais frequência e não apenas na lua cheia. Toda a gente sabe que Fernando Valim se transforma em burro em certas noites. O que, aliás, no caso dele, nem é uma grande transformação. Mas essas metamorfoses são mais frequentes desde a chegada da inglesa, ou assim creem as pessoas, de cada vez que um burro se solta e corre, de noite, pelas ruas. Todos temem o exotismo do sacerdote nigeriano e do brahmin, sempre com tão poucas roupas, mesmo no Inverno. O hindu foi visto certa vez com uma cobra pendurada no pescoço, e quando os peitos de Genoveva começaram a mirrar e o seu bebê a emagrecer, a população achou, de imediato, que a culpa era dele, do indiano quase nu, que instruía a cobra para que, quando a mãe adormecesse com o bebê ao colo, lhe sugasse o leite das tetas, deixando Genoveva crente de que fora a criança a mamar e não a cobra. A esta atitude de receio, que os dois sacerdotes acham ser reverência ou adoração, soma-se um profundo asco. A crença errônea que os dois alimentam, a ideia de que são respeitados, é corroborada pelas inúmeras dádivas com que os prodigalizam. Quando passam na rua, dão-lhes frutas, queijos e enchidos. O hindu começou por recusar, acima de tudo por obrigação religiosa, mas aos poucos foi-se rendendo à carne de porco e vaca, ao borrego e ao cabrito, aos enchidos. Por vezes come de imediato as coisas que lhe oferecem, devora-as como um esfomeado, e depois atira os ossos aos cães vadios. Arrota e limpa a boca ao braço, aponta para os cães e exibe a sua sabedoria: o autoconhecimento é uma coisa muito difícil, é como os cães, que roem ossos, mas não roem os seus próprios ossos.
Os aldeões ficam a olhar para ele, sem compreender, espantados com a sua
voracidade e com aquelas palavras ditas em inglês. Um dia, estava o hindu a dormir no chão, sentado em cima de uma sombra de eucalipto, quando Fernando Valim passou por ele, cautelosamente para não o acordar. Vinha a correr, mas estacou, ergueu a perna esquerda com cuidado e fê-la passar por cima das pernas estendidas do indiano. Ao passar a perna direita, o hindu acordou e desatou aos berros, pois os orientais não gostam que lhes passem por cima das pernas. Fernando, assustado, começou a correr com os braços no ar, também ele a gritar. Quando, poucos dias depois, à noite, se soltou um burro, todos concluíram que era Fernando Valim, ainda mais amaldiçoado do que era costume, pois agora acumulava às suas metamorfoses trágicas os gritos furiosos do indiano.