Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 53
A porta está aberta antes de Ari bater, pois Rosa viu a luz da sua lanterna ao longe, a iluminar a noite como uma estrela indecisa, a olhar para um lado e para o outro. Rosa solta suspiros de enfado quando ele entra, para mostrar o seu desagrado. Há um garfo em cima da mesa e Ari dirige-se nessa direção, como se aquilo fosse o seu destino. Pega no garfo e começa a espetá-lo nas costas da mão. O garfo entorta-se e nem sequer faz sangue.
— Estás a estragar o garfo todo — diz Rosa. — Toma o anel.
— O amor não se compra.
— Mas paga-se caro.
Rosa olha para ele, que ainda tem a frase na boca. Essas palavras poderiam ser
de Harold Estefania.
— Queres uma fatia de bolo?
— Não me faças isso, Rosa. Nem venhas com desculpas. — Quais desculpas? Sabes o que é que dizia o meu pai? As desculpas são a
cauda da lagartixa, fica no meio do caminho a abanar-se enquanto a lagartixa foge. E eu estou aqui, não estou? Estás a ver a minha cauda?
Ari olha para o rabo dela, instintivamente.
Rosa grita com ele e Ari encolhe os ombros. Senta-se ao lado dela. Na televisão está um homem que tem treze amantes. Rosa interroga-se: agora
vão ficar todas a saber uma das outras. As pessoas ligam para o programa e insultam-no, mas Rosa tem vontade de alertá-lo. Pensa em ligar, mas receia não gostar de ouvir a sua própria voz. Uma vez, ouviu-se numa gravação e nem se reconhecia. Aquela era outra Rosa. Os gravadores têm outra pessoa a gravar por nós. Portanto o homem com as treze amantes vai ter de se desenrascar de outra maneira.
Entretanto, Ari sai com os ombros caídos, com um anel no bolso, e com a
lanterna a apontar de um lado para o outro como uma estrela indecisa.